do desencanto do mundo pré aniversário

Como diria a minha avó, eu entro no “ano novo” ficando mais velha. Completei 23 anos no último dia 3 de Janeiro, queria ter publicado esse texto na data, mas preferi não ficar em casa. Sei lá, mas algo está diferente, muito diferente. Acho que as coisas estão ficando cada vez mais sérias, talvez até mais sem graça.

Quando eu era criança eu passava a noite sem dormir, esperava a chegada do dia, do “meu” dia. Era a minha data preferida do ano, eu realmente me sentia  especial. Não sei o que aconteceu, mas parece que fui pega por um “desencanto”, simplesmente caiu a ficha de que ninguém é tão especial assim. Que pena.

Não que essa nova percepção seja ruim, pelo contrário, acho que um choque de realidade até que faz bem. Foi bom receber o carinho dos amigos, o aconchego da família e melhor ainda, tive um tempo para refletir sobre a vida, sobre meu futuro. Tenho tantos sonhos, tantos desejos, tantos medos. Apesar do desencanto, da “falta de graça” eu terminei meu dia bem, agradecendo a Deus por ter uma mãe maravilhosa, por ter uma avó sã e saudável, por ser amada e ter quem  amar – existe melhor presente que esse?

Desculpa, hoje eu to piegas pra caralho... Mas, sei lá, talvez seja o fato de ter ficado sozinha em casa e com uma garrafa de vinho aberta.

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A obscena senhora D

Quem acompanha o La Amora sabe que eu sou alucinada com a Hilda Hilst. Desde que entrei na faculdade e fui apresentada a autora, comecei a ler e pesquisar sobre ela como louca. Hilst (1960-2004) é única, possui uma linguagem complexa, densa e contemporânea. Famosa por ser “belíssima” na juventude (e, inclusive, ser uma das grandes paixões de Carlos Drummond de Andrade), Hilda completou a faculdade de direito, mas não seguiu a profissão: preferiu dedicar-se a escrita e assim o fez, lançou seu primeiro livro aos vinte e três anos.

Mudou-se para a Casa do Sol em 1963 e lá estabeleceu uma rotina de escrever todos os dias pela manhã (e poesia a qualquer hora). Por muito tempo a autora foi alvo de críticas e viu-se envolvida em polêmicas, em entrevista, por exemplo, afirmou que fazia contato com alienígenas e com mortos em sua residência. Hilst, que dedicou a sua vida a literatura, reclamava da falta de leitores, os críticos taxaram sua obra como “de difícil compreensão”. Hilda afirmou:“fico besta quando me entendem”.

Como todo e qualquer autor, Hilda queria ser lida. Queria superar o círculo de admiradores que já conheciam a sua obra e se chateava por não conseguir estabelecer uma relação com os seus leitores. “E então eu falei: quer saber? Não vou escrever mais nada de importante. Falam sempre aquelas coisas, que eu sou uma tábua etrusca, que eu sou hieróglifo, não sei o que”. Foi assim que começou a escrever textos obscenos (eróticos/pornográficos não! obscenos), daí cria a trilogia obscena composta por: “O caderno Rosa de Lori Lamby”, “Contos d’escárnio: textos grotescos ” e “Cartas de um sedutor” onde abordava vários assuntos pesados como homossexualidade e pedofilia.

Para a sua decepção, seus livros continuaram “não lidos”. E pior, foi devorada pela crítica, estraçalhada por uma sociedade conservadora e hipócrita, as editoras a abandonaram – se negavam a publicá-la…

ImagemMas, vamos ao livro. “A obscena senhora D” foi lançado em 1982 (antes de trilogia).  A obra conta a história de Hillé, uma senhora na casa dos sessenta anos que, após a morte do marido (Ehud) enlouqueceu completamente e passou a morar no vão da escada. A narrativa compõe-se justamente do seu fluxo de consciência, é escrito em primeira pessoa e não possui uma sequência lógica. Quanto mais se distancia do mundo externo, mais Hillé enlouquece. A velha senhora passa a se questionar sobre diversas coisas, pergunta-se sobre o passado, sobre a vida, sobre o amor, a dor e a morte.

O mais interessante é que Hillé não é a única narradora, ao longo do livro, outras “vozes” aparecem e dialogam com ela. E Hilst é simplesmente brilhante no que faz, afinal, o leitor consegue diferenciar os personagens facilmente. Às vezes ela conversa com Ehud, às vezes com os vizinhos (em um momento, por exemplo, ma vizinha pede que Hillé pare de aparecer nua na janela e pare de assustar as criancinhas). Quanto mais se distancia do mundo externo, mais Hillé enlouquece.

Mas, por quê senhora D? Logo no inicinho do livro ela explica o apelido que recebeu do marido: “D de derrelição, desamparo, abandono”. Assim, ela possui uma dupla personalidade, é Hillé e Senhora D ao mesmo tempo. Diversas vezes Hillé é chamada de porca pelos vizinhos e quem tenta ajudá-la recebe palavrões e xingamentos (em um momento do livro, tentam exorcizá-la!).

Assim como na maioria dos seus outros livros, em “A obscena senhora D” Hilda Hilst traz questionamentos existencialistas, analisa a relação do homem com Deus e se pergunta sobre a morte. Segundo a tese de mestrado da Cinara Leite Guimarães, esse foi um dos livros de Hilst com tradução para o francês e também é considerado um dos textos mais importantes e complexos produzidos pela autora. A autora também afirma que Hilda possuiu um grande envolvimento com o livro e com o personagem. Seu pai era escritor, não deixou uma obra marcante e acabou os seus dias em um hospício (em parte, Hilda se inspirou nele).

Referências: A obscena senhora D, de Hilda Hislt, e as relações entre Eros, Tânatos e Logos, Cinara Leite Guimarães, Universidade Federal da Paraíba, 2007.

Holocausto Brasileiro

Holocausto Brasileiro é um livro fantástico, de importância histórica e de admirável trabalho jornalístico. Realizado por Daniela Arbex, o livro relembra a terrível história do Hospital Colônia, um hospício que funcionou durante décadas e fez mais de 60 mil vítimas (pacientes que foram violentados, torturados e privados de sua liberdade).

O Hospital Colônia foi fundado em 1903 em Barbacena, Minas Gerais. A instituição, que atendia diversos casos psiquiátricos em todo o estado serviu de palco para uma das mais assustadoras histórias que envolvem o serviço nacional de saúde pública. Comparado a um campo de concentração nazista, o “Colônia” existiu por mais de oitenta anos e foi mantido não só pelo estado como também pela igreja católica.

dica-leitura-caos-holocausto-brasileiro-banner-featuredOs pacientes chegavam em grandes vagões de carga conhecidos como “Trem Doido”, eram exibidos aos moradores que se reuniam para ver (e para  fazer chacota) dos doentes. Quando entravam na instituição, tinham seus cabelos raspados e eram despidos, muitos perdiam a identidade, a família e a dignidade. O processo de internação era absurdo, totalmente arbitrário. Uma mulher foi internada porque era triste demais, outra porque engravidara do patrão, um garoto foi internado porque era muito tímido…

O Colônia servia para “esconder” a escória da sociedade, as pessoas que a autora chama de “invisíveis”. E eram mesmo, não tinham nome, nem voz, eram excluídos porque não se adaptaram a sociedade. Muitos foram internados (ou presos) porque eram homossexuais e de acordo com a autora, cerca de 70% dos pacientes não tinham diagnostico de doença mental.  Crianças e adultos eram enclausurados nas mesmas celas, dormiam em camas sem colchão (usavam capim, repleto de urina e fezes), bebiam água de esgoto, comiam ratos e morcegos, sofriam lobotomia e levavam eletrochoques (por funcionários inexperientes), eram dopados, impedidos de  sair do hospital (quer dizer, só saiam mortos de lá).

ImagemEm princípio, pouco tempo antes de ler o livro e conhecer a história em sua complexidade, eu achava que o título “Holocausto Brasileiro” banalizava e não fazia jus ao termo.  Depois que li e reli a obra, não restaram dúvidas de que esse título é perfeito, tanto pelas barbaridades cometidas no Colônia quanto pelo número de vítimas.

É engraçado porque é justamente com essa percepção que Daniela Arbex inicia o prefácio, talvez adivinhando a reação dos leitores: “As palavras sofrem com a banalização. Quando abusadas pelo nosso despudor, são roubadas do sentido. Holocausto é uma palavra assim. Em geral soa como exagero quando aplicado a algo além do assassinato em massa dos judeus pelos nazistas na Segunda Guerra Mundial. Neste livro, porém, seu uso é preciso”  – Aliás, a comparação do hospital a um campo de concentração nazista não surgiu da escritora e sim do psiquiatra italiano Franco Basaglia, que em 1979 visitou a instituição e se horrorizou com o que viu.

ImagemFiquei chocada quando terminei de ler, um pouco assustada em relação a capacidade humana de ser e fazer “mal” – mais do que isso, de se silenciar diante de uma situação como essa, afinal, onde estavam os governantes, os vizinhos e as famílias que tinha conhecimento do estado dessas ‘vítimas’ e não faziam nada?

Em 1979, quando o muro do Colônia começava a cair e o “horror” chamava a atenção da opinião pública, o diretor mineiro Helvécio Ratton entrou no hospício e documentou a situação. O documentário “Em nome da razão – Um filme sobre os porões da loucura” foi todo filmado em preto e branco, sem nenhum tipo de trilha sonora. Confira!

[Depois de ler o livro, a impressão que tive foi que a Daniela Arbex não impressiona muito como narradora, apesar da história extremamente chocante, há aspectos textuais que deixam a desejar. É evidente que seu trabalho jornalístico – como citei acima – foi bem feito e exaustivo, ela fez o que manda a cartilha: entrevistas, apuração (…) Mas também usou e abusou de um texto romantizado e deixou algumas lacunas.]