A máscara do anonimato

Me deparei com o DVD na loja e não resisti em comprar. Acabo de vê-lo e, depois de ler várias resenhas, fico mais tranquila em saber que eu não fui a única a me sentir perdida. “A máscara do anonimato” é um filme de 2003, dirigido por Larry Charles e roteirizado por ninguém mais, ninguém menos que Bob Dylan. A premissa é bem interessante, mas o desenvolvimento traz uma sequência complexa e pouco linear. Apesar de um elenco de peso, o filme recebeu várias críticas negativas, o New York Times chegou a considerá-lo “uma bagunça incoerente e profana”. 

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A trama não determina a época nem o lugar da história, o que se sabe é que se passa em um país pobre e subdesenvolvido que vive a mercê das vontades de um governo abusivo e ditatorial. Nina Verônica (uma produtora de TV) e seu parceiro Uncle Sweetheart estão completamente endividados e para fugirem dos agiotas, decidem organizar um show de caridade e roubar parte do dinheiro. Com uma pequena verba inicial, decidem soltar Jack Fate (Dylan), uma lenda da música que caiu no esquecimento depois de ficar preso. A volta de Fate traz a tona várias polêmicas e a maior delas, envolve o presidente.

Gosto de filmes experimentais e “A Máscara do anonimato” não está longe disso, há um uso quase abusivo da câmera subjetiva e diálogos extremamente metafóricos: a maioria trazendo um questionamento sobre governos opressores e censuras veladas. Percebe-se, já na abertura, uma crítica social que é desenvolvida ao longo da trama e vivida pelos personagens em particularidade. Apesar de comportamentos agressivos, todos possuem uma insatisfação quanto a situação que vivem e pela vida que levam. Outro aspecto técnico que me agradou foi a ambientação, marcada por uma cenografia quase teatral (não fosse as poucas tomadas externas).

Pelo que eu entendi, os personagens de John Goodman e Jessica Lange (alias, uma femme fatale) representam a grande mídia que cede ao sistema opressor e não só concorda, como também sustenta a barbárie. Aliás, renderam suas ideologias e trouxeram uma brutalidade para o próprio cotidiano, exigindo que os outros obedeçam suas vontades. Ao mesmo tempo, se questionam sobre o modo de vida que levam e são infelizes (como aquela cena do trailer, em que Jessica Lange aparece desolada e só, como se sentisse incapaz de mudar). Em contrapartida, Jeff Bridges encarna o bom jornalismo, o contestador e que além de mais fraco, acaba vencido no final.

Jessica Lange - Masked and

Penélope Cruz possui uma pequena participação, repleta de sentidos (posso estar enganada), mas acho que seu personagem simboliza a religião: que aliena, que cega. Cruz traz a tela um personagem estranho e infantilizado e totalmente dependente da ação alheia. No mais, “A Máscara do Anonimato” ou “Mascarados e Anônimos” possui uma deliciosa trilha sonora e é o típico filme que deixa inúmeras dúvidas na cabeça.

A força da amizade

A Força da Amizade

Li várias críticas negativas sobre esse filme e muitas delas são válidas. Apesar de trazer velhos clichês dos road movies, A força da amizade oferece uma trama agradável, com boas atuações e uma bela fotografia. De fato, aquela história de personagens que recebem lições de vida através de uma viajem não é uma novidade no cinema e a direção de Christopher N. Rowley (aliás, sua estreia) é um pouco imprecisa. É difícil não fazer uma comparação ao clássico ‘Thelma e Louise’ de Ridley Scott. As paisagens, os personagens femininos e até o figurino nos leva a lembrar dele (A Força da amizade chegou a ser apelidado de ‘Thelma e Louise na menopausa‘). Apesar de todas as contradições, Jessica Lange, Kathy Bates e Joan Allen apresentam uma boa química e são o que há de mais convidativo no filme.

Na trama, Jessica Lange interpreta Arvila Holden, uma mulher que acaba de ficar viúva e que para atender o pedido do marido, resolve espalhar suas cinzas. A decisão de Arvila desagrada Francine (Christine Baranski) que deseja que seu pai seja enterrado ao lado de sua mãe. Francine determina que se Arvila não concordar com o enterro e não lhe entregar as cinzas, venderá a casa (que seu pai lhe deixou através do testamento). Acompanhada das melhores amigas, Margie (Kathy Bates) e Carol (Joan Allen), Arvila resolve realizar uma viagem em seu Bonneville conversível para decidir o que fazer.

Bonneville

Apesar da situação ser um pouco mórbida (principalmente pelo fato de Árvila levar as cinzas do marido para todos os lugares e, inclusive, adormecer com elas) há um clima de euforia e aventura ao longo da viagem que deixa a trama mais agradável. Joan Allen e Kathy Bates interpretam personagens em contraponto, enquanto Carol (Allen) é uma mulher casada, extremamente religiosa e preocupada com a família, Magie é solteira e só deseja se divertir. Christine Baranski, com pouco destaque, é um elemento crucial da história e nos levanta questionamentos sobre Árvila. Independente de Francine ser arrogante, ela tinha o direito de se despedir do pai e não o fez pois Árvila a impediu – ao meu ver, esse é o momento mais dramático do longa.

Jessica Lange se sai muito bem, mas dessa vez um aspecto me chamou a atenção. O efeito do excesso de cirurgias plásticas em seu rosto é assustador. Em uma entrevista que vi, ela afirma que escolheu aparecer no filme com pouca maquiagem para trazer mais naturalidade e dor ao personagem. De fato, Árvila é o destaque da trama e acompanhamos de perto seu sofrimento, mas é justamente a ausência de maquiagem que nos possibilita reparar sua expressão muito marcada pela plástica.

O namoro de Magie com o caminhoneiro não foi bem desenvolvido, mas foi prazeroso vê-la se apaixonar e se entregar ao relacionamento. Gosto quando a Carol, em sinal de companheirismo e proteção, chama o caminhoneiro para conversar e pede que ele não brinque com os sentimentos de sua melhor amiga. Quando o jovem Bo apareceu para ajudá-las a concertar o pneu, eu achei que ele e Árvila teriam algum lance, apesar do clima (e da pouca química entre os dois), o fato de Arvila se inspirar na história dele para seguir seu caminho provavelmente uma das lições mais bacanas, a de persistir. É uma pena que esse filme seja tão difícil de encontrar, tanto para download quando em DVD.

Mais estranho que a ficção

Mais estranho que a ficção possui um dos argumentos mais brilhantes que eu já vi em um filme e ainda que o desempenho não seja tão grandioso, resta reconhecer que a premissa é no mínimo curiosa.

A trama conta a história de Harold Crick (Will Ferrell), um personagem fictício de um livro que de repente, começa a ouvir a voz da autora de sua história. Ela não só narra seus sentimentos como também antecipa suas ações. Para entender o que se passa, Harold procura ajuda de um professor de literatura que tenta prever (através de estudos literários) qual será o seu futuro. Um dia, a caminho do trabalho, a narradora diz que sua morte está iminente e ele entra em desespero sem saber como lutar contra o seu destino. Imerso em questionamentos sobre a própria vida, Harold decide se entregar (como nunca o fez antes) a uma nova paixão, Ana Pascal (a jovem cozinheira que conheceu a pouco tempo).

Através de outra perspectiva, acompanhamos a história de Karen Eiffel (Emma Thompson) uma escritora solitária que está enfrentando um bloqueio criativo e que não sabe como matar o personagem principal de seu ultimo livro: Harold Crick.

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Eis um típico filme que trabalha a metalinguagem com leveza e sensibilidade. Muitos questionaram a atuação de Will Ferrell no papel principal, eu particularmente acho que ele se saiu muito bem. A verdade é que independente do ator, Harold é um personagem riquíssimo e de fácil identificação (tanto no cinema, quanto – provavelmente – no universo literário).

O cotidiano maçante o tornou um homem refém das próprias ações, totalmente desmotivado e com poucas perspectivas: Harold faz as mesmas coisas, todos os dias, sem se perguntar ‘porque eu não largo tudo isso e vou fazer o que eu gosto?” Em contrapartida, ele se apaixona pela única mulher que o levou a questionar seus hábitos. Ana Pascal, diferente de Harold, largou a faculdade em Havard para atender aos seus desejos, ela usa roupas despojadas, se diverte com os amigos e tem uma personalidade forte.

Gosto muito da Emma Thompson e ela está divina nesse filme: com uma aparência frágil, ela nos convence que é uma escritora completamente atormentada pela idéia de matar um de seus melhores personagens. Há algo mais profundo que liga Karen e Harold, não é só o livro ou a narração, é o fato de que os dois se sentem perdidos, os dois estão sem rumo. Adoro a maneira que ela encontra para descobrir como matar Harold: Karen se coloca no lugar dele, ela se desloca da sua casa confortável e vai para as ruas (para os hospitais, para as pontes) com o intuito de ver, de sentir o que Harold sentiria. Outro fato importante é a perspectiva narrativa, a voz de Karen não só nos dá uma noção sobre os personagens como provoca a catarse.

É impossível, em determinado momento, não se perguntar se Harold existe ou não. Se você não se importa com Spoilers continue lendo, mas o fato é que Harold existe e inclusive, chega a se encontrar com Karen para implorar que ela o deixe vivo. De maneira inusitada, Karen (que é famosa por ‘matar seus personagens’) entra em uma crise consciência se culpando por todos os personagens que morreram em seus livros.

Essa nítida discussão sobre o que é real ou não me remeteu a Kauffman, que possui estratégias fantásticas em seus filmes que questionam diretamente o espectador (o que Forster conseguiu fazer de maneira leve e bem humorada – e esse é um dos seus principais êxitos).

Mais estranho que a ficção é um filme que nos questiona sobre a vida, sobre o que queremos e o que estamos fazendo dela. Não somos personagens de um livro, nós não estamos sujeitos a vontade do destino (será?).

– Filme de 2007, dirigido por Marc Forster

28 de Junho de 1949

Sei que essas palavras podem ser usadas para me incriminar, apesar disso preciso escrever um pouco para aliviar a culpa que cresce e sufoca o meu coração. Uma desgraça se abateu sobre a minha vida, uma nuvem nebulosa invadiu os meus dias: estou desesperada e com muito medo! Depois do último show que fiz, saí com um cliente e ficamos bebendo por horas. Ele acabou dormindo, eu pequei o meu dinheiro e fui embora. Oh Deus! Não sei como descrever o que aconteceu depois.

Saí de carro em direção a minha casa, eu estava alcoolizada e não percebi que uma garotinha, uma pobre e pequena garota passeava em sua bicicleta. Tudo aconteceu tão rápido! As únicas coisas que consegui reparar foi que ela vestia um casaco azul e usava óculos grossos. Senti os efeitos da batida sobre o meu corpo, o vidro do carro estava quebrado, vi a menina estendida no chão – ela pedia por socorro. Fiquei aterrorizada, acelerei com o meu carro e a deixei lá. Eu sou um monstro!

Não consegui dormir direito, bebi mais e mais até ficar inconsciente. Hoje de manhã, Terry bateu em minha porta e disse que colocara outra pessoa para cantar no meu lugar. Adivinha quem? Isso mesmo, a prima gorda dele. Eu sabia que algo estava errado. Ele não desconfiou de nada,  não sabe (e nem pode saber do atropelamento). Tentei seduzi-lo, me humilhei, implorei para que me deixassem cantar. Ele me empurrou, disse que ‘eu estava cheirando a vômito’. Aquele infeliz! Terry já bateu em mim uma vez, eu estava no palco e o vi beijando outra mulher. Fiquei com raiva, com um ciúme incontrolável.  Aproveitei a oportunidade e disse no microfone: ‘Estão vendo aquele canalha? Aquele mesmo de terno  marrom! Pois ele é um vagabundo, um homem que vive às custas da mulher!’. Ele fingiu não ouvir, pegou a puta com quem estava e saiu. Horas depois bateu em minha porta, me deu um soco que me deixou bamba. Caí perto do sofá e ele não parava de me bater, me deu pontapés perto da barriga, socou o meu rosto na parede. Alguns homens que estavam perto ouviram os gritos e o impediram, eu sangrei tanto que tive que ser levada ao hospital. Fizemos as pazes depois, ele percebeu que não conseguiria viver sem o meu dinheiro, apareceu no meu apartamento com rosas, pedindo desculpas – eu aceitei.

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Terry me deixou um pouco de dinheiro e um jornal – a notícia sobre o atropelamento se espalhou e agora eles procuram o assassino. Eu sou o assassino! Peguei todas as minhas coisas e saí sem rumo com o meu carro, estou parada em um acostamento A pequena está morta! Se eu pudesse eu teria dado a minha vida a ela, eu não tenho medo da morte, já fiquei cara-a-cara com ela e não me estremeci por isso. Eu não sei o que fazer, que Deus me ajude.

Ass. Judy

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