Metamorfoses de Madame Bovary

“Metamorfoses” é o subtítulo do capítulo 4 do livro de Robert Stam – A literatura através do cinema (Realismo, magia e  a arte da adaptação). O autor apresenta uma rica análise sobre um dos meus livros favoritos: Madame Bovary, de Gustave Flaubert.  O capítulo é pesado, com termos literários e cinematográficos complexos e relevantes para quem se interessa pela área.

Em princípio Stam compara Emma Bovary  a Dom Quixote. Ele explica que os dois personagens se inspiram nos romances de cavalaria durante a vida e justamente por isso, passam por um processo  de desencantamento – percebem que a vida real não corresponde às expectativas criadas pelos livros.

Na verdade li Madame Bovary aos 15 anos, motivada pelo filme de Chabrol com Isabelle Huppert interpretando a personagem principal. Apesar de sempre idealizar alguma coisa ou alguém, Emma me cativou nas seguintes questões: além do tom feminista, se entregou aos seus desejos, tentou fugir das banalidades do casamento e dos substratos religioso e acima de tudo: tinha uma personalidade subversiva.

Acentuando o que Stam afirma sobre a personagem: apesar de encontrar no amante as mesmas banalidades do casamento, ela continua mandando cartas de amor a Leon – alimentando a ilusão de que há uma maneira correta para se ter um relacionamento amoroso.  Através de uma interface com a modernidade, Stam explica que o livro de Flaubert funciona perfeitamente como um roteiro que ensina ao ator como se portar e ao produtor como situar câmeras por meio de passagens detalhadas.

O que ele quer dizer é que a precisão de Flaubert facilita a construção de um roteiro. São dicas sensoriais e de composição passíveis de adaptações, como por exemplo: descrições do figurino, detalhes de enquadramento e a postura física. Todas essas dicas ainda são ligadas a uma questão fundamental: ao discurso indireto livre, que facilita o acesso aos sentimentos e pensamentos do personagem. Stam deixa claro que o trabalho de Flaubert tem um tom “protocinematográfico” .

O autor ainda completa: “(…) a importância histórica de Madame Bovary, é em parte, proveniente de seu ágil emprego do ponto de vista romanesco  e especialmente da maneira com que Flaubert dispersa a agencia narrativa delegando – a aos múltiplos personagens, sem intervenção autoral direta à la Balzac”. – p 203.

Madame  C’est Moi

 

Stam chega a uma das minhas reflexões favoritas sobre a obra: realiza uma crítica fundamental à “extensão da identificação” de Flaubert com Emma, ou seja, Flaubert mistura suas memórias as memórias das personagens. É exatamente o que Alfred Hitchcock faz em seus filmes – e atua também como um voyeur. Quando foi levado aos tribunais, Flaubert disse a frase: “Eu sou Madame Bovary” para se defender das acusações. Esse deslocamento é sentindo inclusive pelo leitor, que “olha com os olhos de Emma”.

Aí chegamos a Chabrol. Na verdade o autor faz uma análise de diversos filmes baseados no romance realista. Há uma variedade tão grande, que eu realmente não imaginava. Confira:

“Madame Bovary é também um dos romances que mais foram filmados. Uma lista parcial incluiria duas versões francesas ( a de Renoir de 1934 e a de Chabrol de 1991); duas versões hollywoodianas ( uma atualização moderna da H. B. Warner, intitulada Unboly Love (1932) e a versão de Minnelli, em 1949); uma versão alemã, em 1937; uma versão Argentina; em 1947; uma italiana, em 1969 (I pecati di Madame Bovary); a versão russa de Alexander Sokurov, em 1989, uma versão indiana em 1985, uma portuguesa, em 1997 de Manuel de Oliveira e uma versão da BBC de 2001″

Na verdade a versão de Chabrol foi à única que vi. Conforme o autor explica, Chabrol realiza um casamento entre as versões de Renoir e Minnelli, colocando ali tudo o que faltou, inclusive deixando

 a obra ainda mais realista. Chabrol tinha uma admiração tamanha por Flaubert, queria ser o mais fiel possível a obra. Tanto que tentou filmar nos lugares indicados por Flaubert. Essa relação com a personagem foi tão forte que na gravação da morte ficou doente. Flaubert também adoeceu enquanto descrevia a morte de Emma.

Mas a relação entre Chabrol e Flaubert não é só de admiração, Robert Stam explica que os dois participaram de movimentos inovadores (o romance clássico francês e a nouvelle vague), são irônicos e – “são fascinados pelas mulheres inteligentes que se destacam entre os homens medíocres que as circunscrevem”.

Gosto da Isabelle Huppert desde ‘Oito Mulheres “, mas foi nesse filme que conheci a sua capacidade subjetiva (e profunda) de interpretação. O autor explica que Huppert chegou a afirmar que saia e entrava do personagem deliberadamente., como uma metamorfose: horas obsessiva, horas desligada. São dois estilos contrapostos: fria, desinteressada e aborrecida x vibrante, viva e apaixonada.

Ao final, Stam deixa um questionamento válido: apesar de tantas adaptações, há alguma realmente feminista? ele sugere diversas e interessantes variações hipertextuais para a obra que realmente fazem falta e conclui que não. Não há no cinema, uma interpretação feminista de Madame Bovary.

Confissões

A imagem dos personagens interpretados por Jack Nicholson há muito tempo me remota a um homem engraçado mas grosseiro, daqueles que se desliga dos valores morais facilmente e que sempre se mete em encrencas. Sabe aqueles personagens que querem fazer justiça com as próprias mãos e tirar vantagens dos outros? Pois é, sempre liguei Nicholson a eles.

 Bom, tudo isso caiu por terra hoje, quando vi o filme “ As confissões de Schmidt” de 2002, dirigido por Alexander Payne. Depois que o filme acabou fiquei me perguntando inclusive porque não o tinha visto antes. Acontece que me emocionei e muito, porque as reflexões sugeridas pelas vivências dos personagens não estão nem um pouco longe da realidade.

 A história é muito simples: Warren Schmidt é um homem de 66 anos que recentemente se aposentou. Sua rotina ainda possui resquícios da vida de administrador. Com tamanha dificuldade em entender que não está mais trabalhando, volta algumas vezes ao serviço para ver se está tudo dando certo e se estão seguindo as dicas que deixou. Um dia, visita sua antiga sala e percebe que já foi ocupada. Quando sai do edifício vê suas caixas jogadas no lixo. Como um choque de realidade entende que as coisas a partir daquele momento precisam mudar.

 Em casa, zapeando pela TV sua atenção é presa por uma propaganda. Imagens de crianças famintas da África pedindo por auxílio. “Adote uma criança por vinte e dois dólares ao mês, setenta e três centavos por dia”.  O senhor então, decide  adotá-lo. a Instituição envia fotos da criança e pede que envie uma carta, contando sobre a sua vida. É nesse momento que começa as confissões de Schmidt. Em princípio ele começa contanto da sua carreira e depois vai detalhando a sua vida pessoal: o carinho que sente pela filha única, a relação desgastada com a mulher (de quem não aguenta mais o cheiro e as manias de interrompê-lo enquanto fala).

 Quando vai aos correios enviar a carta, sua mulher está limpando o chão. Quando retorna, ela está morta. Triste, Schmidt se dá conta que agora está sozinho. Ele começa a perceber que as reclamações que fizera sobre a mulher na carta não chegavam nem perto do amor que sentia por ela. Sua morte provocou a visita da sua filha (que quase não ia aquela casa). Descobrimos então uma distância entre os dois, apesar do carinho enorme (e das tentativas de aproximação do pai para com a filha), seus questionamentos são por exemplo: “Porque você comprou o caixão mais barato para ela?”

 A filha: Jeannie (Hope Davis) se vai e Schmidt se vê novamente sozinho, junto com os questionamentos sobre o seu passado e sobre o seu futuro. Diante dos acontecimentos repentinos, decide realizar uma jornada rumo a Nebraska (no trailer que ele e a mulher compraram) para ajudar no casamento da filha com Randall (Dermot Mulroney), um vendedor de camas d’água. No caminho ele se depara com pessoas e situações que o faz refletir sobre a vida, sobre o casamento, sobre os seus desejos. – Esqueci de comentar que o filme é um roadmovie.

 Não queria que o post fosse tão descritivo, mas ainda não consigo fugir muito disso. De todos os questionamentos feitos por Schmidt, um deles me pareceu familiar (inclusive há um texto de Martha Medeiros sobre isso). O personagem fala com o garoto africano através das cartas que não sabe até quando estará vivo: “pode ser daqui há vinte anos, ou daqui a um dia”. O fato é que seremos vivos até que se lembrem de nós. Pode ser através dos nossos filhos, dos nossos netos ou amigos. Enquanto somos lembrados estaremos vivos, depois desaparecemos do mundo. Quem irá comentar dos nossos feitos, das nossas manias? Só quem nos conhece ou, quem se lembra de nós.

 Revendo fotos antigas, se lembra dos seus desejos, dos seus sonhos: quando estava na faculdade, queria mudar o mundo ou pelo menos ser alguém importante. Mas quando se casou e teve uma filha percebeu que a realidade é muito mais consistente: “não consegui mudar o mundo, nem a minha vida”. A viagem que ele realiza é um “fazer as pazes” com seu passado. Ele entende que atrás daquele bom homem, que aceita e que diz sim para tudo, há muito mais. Há raiva, há tristezas, arrependimentos. Sentimentos comuns a qualquer ser humano. O filme simplesmente é lindo, é válido e deve ser visto mais de uma vez.

O que fizemos de nós?

 

Comecei a ler o segundo livro com menos entusiasmo do que pelo primeiro mas fui sendo cativada mais uma vez pela capacidade narrativa de Zuenir Ventura. O segundo livro “1968, O que fizemos de nós” só perdeu um pouco do meu interesse por causa de algumas entrevistas. O fato é que me surpreendi positivamente (mais uma vez), não há nada de pedante em nenhuma das afirmações, uma lição jornalística: a importância das entrevistas.

Gosto principalmente da primeira parte e de suas respectivas divisões, os ‘reflexos do baile distante, ‘a falta de bússola – enfim, são fantásticas. Esse balanço que o autor faz, mostra que melhoramos em muitas coisas e que ainda estamos em dívida com muitas outras. O que mais me agrada é pensar que a reflexão do autor sobre a “nova geração” ou a “geração dos netos de 68” é justamente sobre a minha geração. Me identifiquei em diversos relatos que ele realiza.

Zuenir Ventura começa o livro conversando com as mulheres que em apoio (e também influenciadas) pelos movimentos de 68, se separaram dos maridos e foram a luta (cada uma a sua forma). Hoje reconhecem que aquela época refletiu diretamente no comportamento das suas netas, nas suas formas de vestir e de conversar. A crítica maior sem dúvidas é sobre a internet, para elas, um processo de alienação.

De fato, o mundo digitalizado trouxe vantagens em relação a 68. A comunicação rápida, o número de informações cada vez maior… mas que transformou as relações pessoais: “Ficam horas no MSN”, como diria Maria Lúcia Dahl. E realmente ficamos. As redes sociais se tornaram tão comuns que são um bem (ou mal?) necessário. No meu caso: pensei inúmeras vezes em apagar a minha conta no Facebook, mas como? Faço trabalhos acadêmicos, combino horários, troco informações, marco encontros.

Meu capítulo preferido sem duvidas é: “Sexo, drogas e rave”. Zuenir trabalha muito bem com esses conceitos, deixando claro suas diferenças entre 2008 e 1968. Gosto principalmente das análises que ele faz sobre o sexo nos dias de hoje, me fez entender muito do porque agimos assim: sim, somos uma geração que tem medo de fazer sexo e porque? Por causa da AIDS. Soa até engraçado quando analisam o “ficar” da nossa geração. “Eles se beijam, beijam e não fazem nada” – ou seja, não chegam nos finalmente.

A AIDS (a concepção, o medo, o terror à doença) veio para limitar essas ideia de amor livre. Sexo só se for seguro, com camisinha. Na década de 1980 não se entendia muito sobre a doença (aliás, acho mesmo que evoluímos pouco, mas pelo menos nos livramos daquela ideia de: câncer gay). O beijo, como explica Zuenir era apenas a preliminar para o contato carnal.

Outro momento interessante do livro é a descrição que ele faz das raves, das comparações com o Festival de Woodstock, das músicas e principalmente dos participantes da festa com pirulitos na boca. Alguns chupam pirulito por causa das drogas, para não trincar os dentes. Outros, chupam porque gostam de bancar a ideia, de fingir. Em falar em drogas, essa foi uma das heranças malditas de 1968, das suas relações com a criminalidade e das suas divergências em relação a liberação ou não.

Bom…. e as listas? Bacana demais, ele faz uma separação do que acabou e do que não acabou com 1968. O que não acabou? Nelson Rodrigues, Pilula Anticoncepcional, capitalismo, maconha, sonho, MPB…. O que terminou? Comunismo, Transar sem camisinha, cabelo comprido, palavrão. O palavrão ele mesmo classifica: “não sumiu mas saiu de moda”.

A melhor entrevista, sem dúvidas é com José Dirceu, que vive reafirmando a sua inocência. Em 2008 havia ainda uma especulação sobre o mensalão, nada como o que vivemos hoje: o julgamento. Na verdade é muito bom ver a perspectivas dos personagens e de como estão agora: Caetano Veloso, Heloisa Buarque de Hollanda, César Benjamim, etc…

sobre a Jacqueline Andere…

Jacqueline Andere

Eu sei pouquíssimo sobre a biografia da Jacqueline Andere apesar de já ter lido muitas coisas sobre ela. Outro dia peguei na biblioteca da PUC o livro ‘ Melodrama’ de Silvia Oroz: e algumas passagens de texto me remeteram diretamente a ela, atriz que acompanhei em inúmeras novelas (algumas pela internet, outras transmitidas pelo SBT). Só para constar, Jacqueline nasceu em 1938 (possui 77 anos). Quando jovem estudou um período nos EUA  antes de voltar para o México para estudar cinema. Seu debut na sétima arte foi em 1958 no filme “Vestido de Noiva”, em 60 estreou na TV através da novela “Vida por vida”.

Resolvi relembrar alguns personagens que mais gostei. É o seguinte, andei lendo algumas páginas e descobri que há muito tempo “Jacky” (como é chamada carinhosamente pelos mexicanos)  ficou muito  marcada ao interpretar vilãs.  Mas nem sempre foi assim, Andere, no inicio da carreira, interpretava mocinhas sucessivamente. Isso só veio a acabar em “Sandra e Paulina”, novela de 1980, em que ela interpretou irmãs gêmeas (a clássica história: uma boa e uma má).


Sobre alguns personagens que gosto:

Bernarda Sainz de Guillén – (A Outra, 2002)

Maldosa que só, Bernarda era uma mulher rancorosa e de passado duvidoso. Quando jovem, começou a trabalhar nas lojas de Leopoldo junto com a sua prima Fabiana. Leopoldo (que já fora casado uma vez) se apaixonou por ela e a levou para casa. Bernarda juntou-se a Leopoldo já grávida de Eugênia (e o novo companheiro sabia da situação). Os dois simulam um casamento e depois de algum tempo ela engravida novamente: da sofredora Carlota.

Acontece que Leopoldo morre – há aquela cena dramática (interpretada por Chantal Andere, filha da Jacky), onde Bernarda entra no velório do amante segurando as meninas pela mão, em um dia chuvoso. Quando lêem o testamento descobrem que Leopoldo distribuiu sua herança para os três filhos (duas que teve com Bernarda e um que teve com a primeira esposa: Romano) – a única condição para que as filhas recebessem o dinheiro era se casarem, enquanto isso não acontecesse, o dinheiro ficava com a mãe. Enfim…a primeira esposa de Leopoldo morre e Romano promete se vingar de Bernarda.

Eu poderia ficar até amanhã falando sobre as reviravoltas da novela, que é uma delícia. Carlota cresce e se apaixona por Álvaro, mas a mãe faz de tudo para impedi-la de ficar com ele. Doente pelo dinheiro, Bernarda (vira um capeta) só de pensar em ver a filha casada. As interpretações são ótimas – em algumas cenas o que predomina é o bom humor (como em toda novela, tem coisa que não dá pra acreditar). Com os olhões esbugalhados (acho que gosto de olho grande) e cheios de lágrimas, Jacqueline fazia uma personagem tão sacana, de coração tão podre – que ficou carismática, com tanta loucura.

Os tapas que as atrizes trocavam eram de verdade. Yadhira Carillo teve que insistir muito para que Jacqueline Andere aceitasse – acreditava que as cenas se aproximavam mais do real. Andere relutou porque quando interpretava Beatriz de Martino em “Estranho Poder” deu um tapa em Érika Buenfil  e estourou o seu tímpano. Os gritos da Bernarda são os melhores, ela não se agüenta, humilha a filha até falar chega. Como toda boa e velha vilã, não poderá ter um fim diferente: morre em uma cilada, tentando pegar uma mala cheia de dinheiro.

Alba San Román – (A Madrasta, 2005)

Eu não sei se prefiro a Bernarda ou a Alba, as duas eram engraçadas demais (de tão “sem noção sabe?). A Madrasta foi uma novela divertida e cativante, muito por causa do enredo e por causa dos atores que são excepcionais. Nesta trama Jacqueline aparece mais uma vez como uma vilã, ou melhor: como uma mulher amargurada, vingativa e mal humorada. Na novela ela está sempre próxima da irmã Carmen, com quem divide um segredo.

A Albinha é um peste e desde o princípio da trama vive atrapalhando a vida de Maria (protagonista e heroína da historia). Maria vai presa, acusada de um crime que não cometeu. Sua prisão a afasta dos filhos e do marido. Quando sai da cadeia, ressentida e com sede de vingança, Maria volta a casa do marido (os “San Román”) para tentar ter a sua antiga vida de volta (e descobrir quem foi o real culpado pelo crime).

Dentre tapas, gritos e acusações: Alba está sempre se sobressaindo. Ela tem um tórrido amor pelo sobrinho, interpretado pelo lindo César Evora, por isso o influencia: o impediu de ajudar Maria (que ficou presa por vinte anos). Na casa há vários personagens que direta ou indiretamente possuem uma relação com Maria. Entre eles o filho da Alba, um menino tímido, sempre muito limitado pela mãe.

No final descobre-se que o garoto não é filho da Alba, e sim da irmã: Carmen. As duas tiveram um caso com o mesmo homem e engravidaram dele. Porém Alba perdeu o bebê e pegou o da irmã (que tinha medo de assumi-lo). O homem também mora na casa e é casado a sobrinha de Alba e Carmen.

Nuria Del Encino de Rivadeneira – (Mi destino eres Tu, 2000)

Gosto demais das produções da Carla Estrada. Na verdade acompanhei esta novela pela internet e não me liguei muito na história central. Comecei a vê-la por causa da Maria Sorte (outra atriz que adoro) e fiquei viciada ainda mais, ao saber que a Jacqueline Andere participava da trama. No início ela aparece muito pouco, seu personagem é quase uma coadjuvante (li que ela chegou a conversar com a Carla Estrada: disse que se não tivesse mais visibilidade na trama, deixaria de gravar a novela).

Bom, Nuria é uma mulher que guarda um segredo “cabeludo”. Durante anos se dedicou ao trabalho comunitário e nutriu uma amizade com Amparo Calderón (interpretada por Sorte). Amparo é a personagem problema: rica, depressiva e alcoólatra (e Nuria sempre está lá para segurar uma barra). Acontece que Nuria há anos atrás foi estuprada pelo marido da Amparo: Augusto (interpretado por Julio Alemán) e chegou a engravidar dele.

Augusto era melhor amigo do marido de Nuria e sempre a ameaçava muito (aliás, as ameaças duram até quase o final da novela). O cara se aproveita que Nuria guarda aquele segredo e então, sempre a assedia sexualmente. O problema é que o filho de Nuria com Augusto se apaixona pela Andrea, filha da Amparo (ou seja, os irmãos se apaixonam) e ela faz de tudo para impedi-los de ficar juntos, sem deixar claro o porque. Depois aparece outro rapaz no pedaço, Andrea se apaixona por ele e tudo se resolve.

Comecei a gostar da novela mesmo já no final, quando a história dá uma reviravolta e Nuria conta o seu segredo. Amparo não acredita em nada, diz que Nuria quer acabar com seu casamento – as duas quase saem no tapa. Mas nada do que Amparo pensa se leva em consideração porque ela sempre está alcoolizada.

A situação só muda mesmo quando Amparo se separa de Augusto e percebe que os assédios denunciados por Nuria são verdadeiros – ela precisa ver com os próprios olhos, para acreditar. Um dia quando foi conversar com a amiga (para brigar com ela mesmo), ela encontra Augusto falando todas as verdades e tentando estuprá-la (é muito estupro para uma novela só, enfim). Na verdade escrevi sobre essa personagem porque está é a única “mocinha” que me lembro de vê-la interpretando.


Enquanto escrevia um pouco sobre as novelas, me lembrei que vi dois filmes com ela que gostei demais.

O Anjo Exterminador – (Direção: Luis Buñuel, 1962)

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Acho que não preciso falar muito desse filme, que é um clássico. Jacky está novinha (nem tinha feito a operação cirúrgica no nariz ainda, estava bem diferente). Com as influencias surrealistas, Buñuel executa um trabalho brilhante. Uma grupo da aristocracia mexicana se une em um jantar e acabam ficando presos naquele ambiente. Porém não há nada que os impeça de sair (nada físico ou visível). Ficam lá por dias e suas características mais primitivas começam a aflorar: sexuais, físicas (improvisam inclusive, um banheiro na sala de jantar). As críticas a igreja são ótimas e o final do filme: delicioso.

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La Casa del Pelícano – (Direção: Sergio Véjar, 1978)

ImagemSe tem um filme mexicano que me surpreendeu pela complexidade e pelo realismo foi esse. Filme forte, que deu origem a diversos estudos sobre patologia clínica: algumas inclusive disponíveis no Google.

A história é a seguinte: Jacqueline Andere interpreta Margarita Ramirez, uma professora que vive com a tia em um pequeno bairro no México. Na cidade há um homem com sérios problemas mentais (interpretado por Frederico Falcón) que sempre assusta todo mundo – menos Margarita que é uma mulher doce e muito solista.

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Um dia, quando volta da escola se depara com o “louco” que a ameaça com uma faca e a estupra (ele bate nela, inclusive chega a cortar seu rosto: achei a cena bem forte para o contexto em que foi produzido). Margarita engravida e passa por um conflito: de abortar ou não. Com a tia religiosa sempre ao seu lado (e influenciando-a), decide gerar a criança e entrega-la ao orfanato assim que nascesse.

Quando ele nasce ela reluta em olhar para ele (evidenciando uma relação de ódio e amor) até que, quando o vê pela primeira vez, decide cria-lo. (A cena do parto é muito bonita, aliás, o filme todo é muito lindo). O menino cresce e Margarita se torna uma mãe possessiva. Se algum menino briga com ele, ela se intromete para defende-lo.

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O tempo vai passando e a relação se torna doentia, ninguém pode chegar perto do garoto (Spoiler, pra variar) até que ele fica adulto e se apaixona (por uma moça que na época foi interpretada pela então desconhecida Daniela Romo) decide ir embora. Margarita fica louca, faz de tudo para mantê-lo em casa, os dois chegam a se atacar fisicamente na cozinha. Margarita não aguenta, sofre demais com a ideia de perdê-lo e então e então, resolve mata-lo. PUTAFILME!

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Nascida em 1938, María Esperanza Jacqueline Andere y Aguilar começou a carreira artística aos quinze anos quando decidiu se mudar para os Estados Unidos e estudar artes cênicas. Quando voltou ao México, ingressou no Instituto Cinematográfico Teatral y de Radiotelevisión. Realizou alguns projetos como atriz experimental no teatro e no cinema estreou em 1958, com o filme: “El Vestido de Novia”. Em 1960, dois anos depois, conseguiu seu primeiro trabalho na televisão em “Vida por vida”. A partir daí a mãe da Chantal Andere não teve mais a sua imagem desvinculada da TV, tornou-se um rosto conhecido e admirado pelo público.

*Escrevi esse post em especial, porque há muito pouco (ou quase nada) sobre ela em sites brasileiros ou em português.

Morcegos

Eu demorei a acreditar no post no site do MDIG, “Preparando uma pratada de morcegos”. É de embrulhar o estômago  mesmo. Mas as imagens nos mostra como o mundo é grande, diverso e: “tem de tudo!”.

No site (de onte tirei as fotos) há a seguinte informação: ” Na Indonésia, especialmente nos arredores de Jacarta, é possível degustar  morcegos fritinhos.  De acordo com  a crença local, a carne desses animais ajuda a curar a asma e outros problemas  com a respiração.”

Humoresque

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Fiquei pensando no post anterior sobre os filmes que mais gosto com a Joan Crawford (sem levar em consideração Baby Jane, que é o meu preferido) e me lembrei de “Acordes do Coração” (ou “Humoresque”, de 1946). Nunca fui fã de romances, mas esse mexe profundamente comigo. Ganhei o dvd de presente quando fiz 15 anos, e fiquei tão apaixonada que revi inúmeras vezes. Acho que foi com esse filme que consegui entender porque muitos fãs admiram a beleza de Crawford e falam sobre a sua fama de “mulher fatal”.

Em “Acordes do Coração”,  Crawford está em uma boa fase:  acabava de receber o Oscar de melhor atriz pelo filme “Almas em Suplício” (produzido pela Warner, onde Bette Davis também trabalhava). Dentes perfeitos, cabelo e roupas impecáveis. Enquanto “Os desgraçados não choram” segue a linha do clima noir, “Acordes do Coração” não consegue (e nem poderia, com uma história dessas) fugir de um melodrama.

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O interessante é que Joan Crawford só aparece mesmo depois de uns 30 minutos do filme. Antes disso, nos é apresentada a história de Paul Boray (interpretado por John Garfield – também em uma das melhores fases de sua carreira). Desde pequeno Paul nutre uma paixão por música. Ainda garoto, ganha um violino da mãe que mesmo sem condições financeiras, faz de tudo para presenteá-lo. Já crescido, decide abandonar a orquestra onde toca porque acredita que para ter sucesso, precisa ser solista. A história vai tomando outros rumos até que Paul é convidado a tocar na festa de uma milionária: Helen Wright (Crawford).

E é claro, eles se apaixonam… mas o problema é que Helen é casada. No site “50 anos de filmes” (que eu sempre tenho como referência, porque gosto muito) é citado inclusive a cena em que Helen acende um cigarro. Vários isqueiros são estendidos a ela simbolizando que aquela milionária neurótica, alcoólatra e insatisfeita com o marido, é também: poderosa.

Os dois passam a manter um relacionamento conturbado: enquanto Paul dedica-se à carreira, Helen quase implora pela atenção do amante (mesmo aceitando apoiá-lo financeiramente). Aí está o impasse: Paul é frio e coloca a música em primeiro lugar, mas Helen não aceita ser coadjuvante do violino.

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Recheado de música e de lirismo, “Acordes do Coração” conta com a direção de Jean Negulesco e com as atuações de Oscar Levant, Paul Cavanagh e J. Carrol Naish. Nas informações especias do DVD, há um fato curioso: criaram uma roupa especial para John Garfield e Isaac Stern (responsável pela trilha sonora) usarem. Isaac enfiava as mãos pelo paletó e tocava, enquanto Garfield fazia as caras e bocas de um músico em plena atuação


Your heart is not open so I must go
The spell has been broken, I loved you so
Freedom comes when you learn to let go
Creation comes when you learn to say no

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Lembrei também de outra coisa: O clipe de “Power of Goodbye” (que eu provavelmente assisti um milhão de vezes) é totalmente inspirado na cena final de Acordes do Coração. Não dá pra explicar muito, porque tem um spoiler enorme… mas é maravilhoso,  a letra é linda e toca exatamente no tema do filme: rompimento. Você pode conferir o clipe aqui. 

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* Revi o filme agora e acho que é preciso colocar isso: O personagem do Paul é também muito arrogante, essa obsessão pelo violino (que parece mais uma fuga da solidão e da incompreensão em que ele se encontra) não o permite ver o quanto a Helen o ama. Apesar das suas fragilidades, o personagem se redime no final do filme, quando mostra que o amor que sente pelo violinista é verdadeiro. E mais uma vez: como a Joan está bonita….putz.

Os desgraçados não choram

Hoje o dia acordou com aquele clima frio e se eu estivesse em casa, com certeza iria rever “The Damned dont cry”, ou “Os desgraçados não choram” – filme de 1950, com a Joan Crawford.

Dirigido por Vincent Sherman, o longa conta a história de Ethel Whitehead. Uma mulher trabalhadora que mora no lado mais pobre da cidade. Ethel vive em constante desacordos com o marido. O estopim do casamento acontece depois que perdem o filho em um acidente (muito trágico por sinal: o menino pede uma bicicleta e o pai diz que não tem como dar. Ethel trabalha por meses para comprá-la contra a vontade do marido. Um dia, o garoto usa a bicicleta e acaba sendo atropelado). Depois disso, Ethel decide sair de casa. Cansada daquela vida, de pobreza e humilhação coloca na cabeça a seguinte frase: “O mundo é dos homens, e só há uma maneira para que uma mulher sobreviva nele: ser tentadora como um bolinho e ao mesmo tempo, dura como um bife ruim”.

 

Assim ela vai trabalhar em uma casa de costura como modelo (e prostituta). Depois de um tempo, se envolve com o mafioso mais poderoso da cidade: Geroge, que lhe dá todo conforto que sempre sonhou. Passa a morar em uma mansão, frequentar jantares e clubes importantes. Muda inclusive o nome. Mas a história dá uma reviravolta. George mata o seu inimigo (interpretado por Steve Cochra) e a culpa recai sobre Ethel. Os jornais passam a explorar a história da alpinista social de passado humilde e ela fica sem saber para onde fugir

Pelo que li no site “50 anos de filmes”, há uma informação no IMDB de que a história é vagamente baseada na vida de Virgínia Hill: “ que foi amante do gângster Bugsy Siegel – o sujeito que criou Las Vagas, e teve sua vida retratada no filme Bugsy, de Barry Levinson, em 1991, com Warren Beatty no papel principal e Annette Benning no da amante.”

Gosto demais desse filme. Aliás, foi o primeiro que vi quando ganhei o Box da Joan Crawford há seis anos atrás. Foi um filme polêmico, com passagens fortes.  Há uma cena em que ela apanha do mafioso (não era comum tanta violência nas telas, muito menos ver uma mulher apanhando). Ele bate tanto nela, que o rosto fica repleto de marcas e então desmaia de dor. Todo o filme possui uma longa representação sobre o mundo luxuoso e degradante da máfia mas é também um crítica irônica ao ‘sonho Hollywoodiano que é alimentado pelo desejo de ter fama e poder.