Precipícios d’alma

Quem frequenta o La Amora sabe o quanto eu sou fã da Joan Crawford, encontrei outro dia um de seus filmes em DVD que há tempos tenho vontade de assistir e confesso que nunca a tinha visto em uma atuação tão primorosa. Precipícios d’alma (Sudden Fear) é um filme de 1952, dirigido por David Millher que traz Crawford, Jack Palance e Gloria Grahame em um ótimo suspense noir que envolve paixão, assassinato, interesse e muito dinheiro. Apesar da simplicidade, a trama apresenta um ritmo delicioso e um trabalho visual muito interessante.

Joan Crawford

O filme inicia-se em um ensaio de uma peça teatral escrita por Myra Hudson (Crawford), uma mulher sensível, bela e riquíssima. Apesar do talento, o ator Lester Blaine (Palance) não é contratado para o papel principal porque segundo Myra, ele não tem o ‘ar romântico’ necessário para o personagem. Depois de ser dispensado, Lester persegue Myra para tentar convencê-la de que tem charme suficiente para participar da peça. Durante uma viagem de trem de Nova York a São Francisco, os dois ficam cada vez mais íntimos e começam a se relacionar. Lester e Myra se casam e vivem por algum tempo um idílico romance ate que Myra decide doar toda a sua fortuna e viver apenas do trabalho que realiza no teatro. Inesperadamente, Lester reencontra uma antiga amante chamada Irene Neves (Grahame) e juntos decidem matar Myra antes que ela se livre do dinheiro.

52suddenfear12july1

Já no começo, há um aspecto muito claro: Lester aproxima-se de Myra para se vingar por ter sido dispensado da peça. O que não fica óbvio é a forma que ele usará para se vingar dela e é o que de fato, sustenta o argumento do filme. Ao aproximar-se de Myra, Lester comprova que além de ser um ótimo ator é um homem perigoso (e porque não, cheio de mistérios?). Enquanto isso, a forte personalidade que Myra apresenta no início da trama (cercada de bajuladores e de homens que a obedecem cegamente) cai por terra quando ela se apaixona. Desde o casamento, Myra traz a tona toda a sua necessidade de receber e de dar amor. Sua face romântica transborda por quase todo o filme e quando descobre que seu marido não é realmente quem pensa, Myra surpreende mais uma vez, mostrando que possui cartas na manga, acentuadas por destreza e astúcia.

Além da tensão presente em todo o filme, outro aspecto que chama atenção é uma enorme sensualidade que envolve os três personagens principais. De fato, Jack Palance não apresenta uma beleza irresistível e ainda assim, te convence que é um arrebatador de corações.  [Aliás, essa foi a sua primeira indicação ao Oscar]. Grahame, no papel de Irene Neves mostra um atrevimento  admirável através de mulher linda e sem escrúpulos. Há uma cena entre os dois muito interessante onde Lester bate em Irene e a empurra no sofá. Ao invés de ter uma reação dramática, Irene se deita e sensualmente acende um cigarro.

oyYEpLppvo49JMm6gCjT6pk6aMe

Joan Crawford está lindíssima, lindíssima mesmo (com um figurino impecável, a atriz exibe um corpo escultural e um rosto marcante que lhe é característico). Mais do que isso: o roteiro lhe favorece imensamente e permite que cresça em tela, explorando diversas feições: alegria, tristeza e medo – ela praticamente manda na câmera.  É importante lembrar que nessa época, Crawford pediu para sair da Warner e estava decidida a trabalhar em outros projetos. Em ‘Precipícios d’alma’ Joan atuou também como produtora e uniu-se a RKO para atrair investidores. Assim como Palance, recebeu uma indicação ao Oscar, mas acabou perdendo para Shirley Booth.

Outro destaque vai para a iluminação marcada por um forte contraste e para a sequência dos pesadelos de Myra onde, por exemplo, ela sonha que está caindo de um prédio. A criatividade técnica expõe uma montagem muito bem feita e acentua o clima de suspense (aliás, as cenas finais são de tirar o fôlego).

Mamãe é de morte

Quem se lembra de ‘Mamãe é de morte’? Aquele filme que passava direto na Band. Pois é, tive a oportunidade de revê-lo ontem e só agora, depois de uma pesquisa rápida, descobri que é uma produção de 1994, dirigida por John Walters ( também diretor em Pink Flamingos, famoso por filmes alternativos e de baixo orçamento, muito conhecido no gênero trash).

Imagem

Há várias controvérsias sobre esse filme, enquanto alguns dizem que é um dos piores de Walters, outros o classificam como um clássico contemporâneo. O fato é que apesar do exagero característico, ‘Mamãe é de morte’ apresenta cenas hilárias com uma boa dose de ironia e humor negro.  A trama conta a história de Beverly Stuphin, uma perfeita dona de casa americana que guarda um terrível segredo: é uma perigosa serial killer.  O cotidiano tranquilo da família (composta por seu marido Eugene (Sam Waterston) e seus dois filhos, Misty e Chip é interrompido quando Bervely sofre uma ‘crise nervosa’ e passa a matar (sem nenhum escrúpulo) qualquer um que incomode sua família.

Revendo o filme, fiquei atenta a várias  menções interessantes ao cinema trash e me deparei com uma cena onde citam ‘Almas Mortas’, um longa B de 1964 que traz Joan Crawford no papel de Lucy Harbin, uma mulher que foi traída pelo namorado e que decide assassina-lo (e a sua amante) a machadadas. Tempos depois ‘Almas Mortas’ foi classificado como um horror cujo subgênero podia ser definido por Psycho-biddy ou hag horror, trata-se de filmes que misturam drama, thriller, vingança e humor negro onde as personagens principais são mulheres maduras e perigosas (algumas insanas e outras sobre tremendo estresse).

Serial_Mom_092

E como Kathleen Turner está linda, aliás, o filme todo é praticamente ela. Responsável pelas cenas mais hilárias (como aquela em que ela imita o canto dos pássaros ou a do julgamento), Turner sobressai aos outros atores em uma encenação ímpar e engraçada.  É interessante perceber características que marcam os filmes dos ano 90, esse, por exemplo, apresenta uma enorme influência da videoarte (como o uso contínuo das janelas e da sobreimpressão).

Mais do que trash (como a cena onde Beverly arranca um rim do rapaz que a filha é apaixonada), ‘Mamãe é de morte’ é uma crítica bem humorada à sociedade moralista e despe a imagem de família [e vizinhança ] exemplar para mostrar que no fundo, todos nos guardamos nossas imperfeições.

Missão madrinha de casamento

Quando fizeram burburinhos sobre esse filme, que foi um sucesso em 2011 e rendeu mais de $700 milhões de bilheteria, eu pensei com meus botões: (desculpem a expressão) ‘Deve ser uma bosta!’. Passou-se o tempo e eu me peguei assistindo o filme pela TV a Cabo e morrendo de rir. Mordo a língua, volto atrás e confesso que ‘Missão madrinha de casamento’ é um filme divertidíssimo, repleto de cenas e diálogos engraçados. Bom, conheço quem não goste da trama e diz que tem muitos clichês de romance de casamento (e na verdade, tem  mesmo), mas apesar de tudo é um filme interessante do qual me arrisco a dizer que é quase uma versão feminina de ‘Se beber não case’.

Imagem

Apesar de ser uma comédia ‘água com açúcar’, Missão madrinha de casamento traz rostos conhecidos da TV Americana (como Rose Byrne, Kristen Wiig e Melissa McCarthy) que sempre deram um show de atuação, mas que de alguma forma, ficaram por muito tempo em segundo plano. Nesse caso, há que citar Melissa McCarthy que ganhou uma enorme visibilidade e que de uns tempos pra cá, cresceu como ninguém no campo do entretenimento.

O filme, dirigido por Paul Feig (o mesmo diretor de Professora sem Classe e As bem armadas) conta a história de Annie, uma mulher que foi convidada pela melhor amiga Lilian para ser sua madrinha de casamento. Annie, no entanto, enfrenta diversas dificuldades para organizar a festa de ‘despedida’ pois sua rival, a Helen, tenta tomar as rédeas da situação e fazer a festa da sua forma (para isso, dispõe-se a gastar fortunas, pagar viagens e vestidos caros). Nesse meio tempo sua vida financeira desanda, ela perde o emprego e é obrigada a voltar a morar com a mãe. Annie conhece um charmoso policial e se apaixona por ele, mas não sabe como lidar com a situação já que desde o último fracasso no relacionamento, decidiu não levar ninguém a sério.

Missão madrinha de casamento - still

Se fossemos comparar com ‘Se beber não Case’, Melissa McCarthy seria o Adam, quase sempre ‘fora de órbita’, seu personagem: Megan chama atenção por apresentar falas inusitadas e desconexas. Rondou também pela internet uma entrevista da Kristen Wiig [que atuou como  roteirista do filme] onde ela afirma que não tem interesse em fazer uma sequencia, segundo Wiig, uma continuação seria muito rentável mas esse não é o objetivo de sua carreira.

Dear Zachary

Dear Zachary

Dear Zachary é um documentário devastador, daqueles que te faz ter medo da mente humana e consciência da fragilidade da vida. Há diversos filmes dramáticos e ficcionais que representam histórias chocantes e que conseguem nos atingir de uma maneira impactante, a diferença é que quando o filme termina, os atores saem da pele do personagem e continuam o rumo de suas vidas. Não nessa história, aqui (como de fato acontece em qualquer lugar do mundo) a morte é definitiva e leva com ela as pessoas que amamos e deixa uma enorme saudade [ou, revolta].

sazasa

O filme possui um formato interessante e apresenta um ritmo fundamental para o desenvolvimento da narrativa. Dear Zachary reconta a história de Andrew Bagby um médico que foi assassinado com cinco tiros pela namorada Shirley. Andrew era melhor amigo de Kurt Kuenne (diretor e produtor do filme) que resolveu pegar depoimentos de vários conhecidos, vizinhos e pacientes e realizar o documentário. Kuenne acompanhou todo o processo judicial que acusava Shirley como a principal suspeita do assassinato e retratou de perto a luta e a dor dos pais de Andrew, os Bagby, para colocá-la na cadeia.

Para surpresa de todos, quatro meses depois, Shirley afirmou que estava grávida de Andrew. Diante dessa perspectiva, o diretor resolveu mudar o formado do filme e como em uma carta, contar para Zachary como era seu pai. Logo no início de uma das entrevistas, há um comentário sucinto, mas que me parece bastante relevante.

Uma amiga (e também ex-namorada de Andrew) diz que no dia seguinte encontrou uma publicação no jornal onde noticiavam que encontraram um homem morto de jaleco em um parque e que ninguém sabia o porque do seu corpo estar ali. Ela questiona a frieza dos jornais e diz que aquela nota não fazia jus ao ‘homem’ que noticiavam estar morto: ‘Esse não era o Andrew, o Andrew era muito mais do que isso….’  Por um momento, como jornalista, me peguei pensando na banalização do cotidiano, nos inúmeros casos de assassinato e de crimes horrendos que escutamos todos os dias, sem nos perguntar ‘quem era ele’ e nos incontáveis mortos que diferente de Andrew, não tiveram a oportunidade de ter a vida recontada (e romanceada) através de um documentário.

dearzachary

Após descobrirem a gravidez de Shirley, David e Kathleen (os Bagby) fizeram de tudo para conseguir a guarda do menino já que Shirley não foi presa. O casal passou por situações inimagináveis, tiveram que conviver diariamente com a assassina do filho, para não perder o contato com o neto.  Em vários momentos [como cúmplices], escutamos gravações de conversas entre David, Shirley e Kathleen onde os avós asseguram que não deixarão que nada falte ao bebê. ‘Deixaremos fralda e leite na sua porta pela manhã, o bebê não vai passar fome’

No desenrolar do filme, Kuenne pede que os entrevistados falem sobre Andrew e que mandem uma mensagem para Zachary: praticamente todos demonstram um carinho imenso por Andrew e fazem questão de contar uma história para comprovar o porque o admiravam  tanto. Logicamente, as entrevistas mais tristes são as dos pais que relatam desde a felicidade do nascimento do filho ao triste dia em que foram reconhecer seu corpo, que estava com o rosto completamente desfigurado após levar um tiro na bochecha.

Finalmente, Kuenne decide viajar e se encontrar com Zachary. As imagens são belíssimas, não há como não se emocionar com essa prova de amor (afinal, fazer um filme é um trabalho árduo – e reconstruir uma biografia ainda mais).  O problema é que a narrativa nos pega de surpresa mais uma vez, o documentário sofre uma reviravolta e nos deixa mais uma vez sem rumo, compartilhando aquela dor imensa: a da perda.

2377475287_4d7e222bc6_o

– Segunda Parte –

Se você se interessou pelo filme e não quer Spoilers, por favor, não leia o resto do texto.

Antes de qualquer coisa eu já tinha decidido parar o texto por aqui, mas eu sinto que falta algo mais, alguma explicação que justifique tanta emoção em relação a um documentário. Pouco tempo depois de encontrar Zachary, Kuenne recebeu a terrível notícia de que Shirley havia desaparecido e levado seu filho com ela. Shirley matou Zachary (que tinha apenas treze meses)  com uma dose de remédios e depois suicidou. Os Bagby, que antes relatavam a felicidade de ter o bebê sob custódia, passam novamente a dor da perda. Kuenne [já, com uma voz cansada e muito triste] revela que depois desse acontecimento, tinha decidido abandonar o projeto , até que percebeu que não fazia sentido fazer um filme para Andrew ou para Zachary, o filme agora era para os Bagby.  De uma maneira muito tocante, os amigos de Andrew mandam mensagens para os Bagby, agradecendo por terem trazido ao mundo, uma pessoa tão especial.

No dia que vi o filme, pouco tempo antes de dormir, fiquei me perguntando se existe uma consciência ou reflexão antes da morte. Seja como for (e sei, que esse pensamento não atingiu só a mim), fiquei pensando no que Andrew, Zachary e Shirley pensaram antes de morrer: se Andrew pensou nos pais, se Shirley pensou nos outros filhos ou se Zachary pensou: ”por quê?“

Do diário de Silvia

Do diário de Silvia foi escrito por Erico Veríssimo em 1961 enquanto ele se encontrava em Virginia, Estados Unidos. O diário encontra-se nos últimos capítulos de o ‘O arquipélago’ (que compõe a trilogia de ‘O tempo e o vento’ – formado também por ‘O Continente’ e ‘O Retrato). No livro, escrito em primeira pessoa, Silvia relembra a infância e expõe a vida conturbada que teve com a mãe, a ausência da figura paterna, o insucesso do casamento com Jango e também fala do amor proibido que sente pelo cunhado: Floriano.

Em seus textos, há uma interlocução com vários personagens de ‘O tempo e o vento’ (como o seu padrinho Dr. Rodrigo,  Dinda – já com 85 anos e completamente cega, o comunista Arão Stein, Tio Bicho e Zeca). Com grande dose de subjetividade, Silvia conta sobre seus pesadelos constantes com a mãe, sobre seus abortos e sua intensa relação com a terra. Outro aspecto interessante é que a história se passa na década de 1940 e há diversas menções a acontecimentos históricos como a implantação do Estado Novo e a Segunda Guerra Mundial.

Fiquei encantada pelo livro! Principalmente porque logo na primeira página, Silvia reflete sobre o hibridismo humano. Passei a lê-lo intensamente e marcar as passagens que me pareciam mais belas, das quais, tomo a liberdade de reproduzir:

Imagem

– Isso prova que, como todo o mundo, tenho dupla personalidade. Agora sou a que escrever e depois serei a que lê. Qual! Tenho muitas Sílvias dentro de mim. Cada vez que eu reler estas páginas, serei outra. E cada uma dessas outras será diferente da que escreveu.

-Em certos momentos, chegamos a ter até um certo orgulho de nossas tristezas e infelicidades, e usamos essas ‘desgraças’ para comover os outros e arrancar deles piedade ou amor. (Não quero piedade, quero amor). Em suma, uma chantagem. Um caso parecido com o da Palmira Pepé, que há anos anda pelas ruas da cidade manquejando, choramingando e mendigando. Quando os médicos querem curar-lhe o defeito da perna, a Palmira recusa, alegando que, se sarar, não terá mais razão de pedir esmolas.

-Afinal de contas, onde está mesmo Deus? Não sei. Sinto que ainda não o avistei. Se Ele me conceder a graça da Sua presença, estou certa de que minha vida mudará para melhor. Em suma, necessito que Deus exista.

– Temos a tendência de classificar as pessoas como os naturalistas classificam as borboletas, feito o que as espetamos com um alfinete contra um quadro… e pronto!, passa a ser peças do nosso museu particular. Acho que foi isso que Jango fez comigo. Não quero fazer o mesmo com ele.

-Por que escrevo todas estas coisas que ninguém, mas ninguém mesmo, deverá nem poderá ler a não ser as outras Sílvias?

-Eu gostaria de compreender melhor as outras pessoas. Seria um modo indireto de me compreender a mim mesma. Gosto de gente. Desejo que os outros gostem de mim. A minha vida não teria sido, toda ela, uma busca de amor?

-Gostamos de nos imaginar bons e generosos. Mas se nos debruçarmos sobre o poço de nossos sentimentos e desejos mais secretos, esse túnel vertical onde se escondem nossas maldades, mesquinhezas, egoísmos e misérias – estou certa de que não reconheceríamos a nossa própria face refletida na água do fundo.

– Quando mamãe morreu, meus olhos permaneceram secos. Eu, que me comovo com facilidade com as histórias tristes imaginárias que leio em romances ou vejo no cinema, não tive lágrimas para chorar a morte da criatura que me deu o ser. O que eu senti foi uma espécie de alívio, mas um alívio doloroso, desses que dilaceram o peito. [Mas Sílvia, você cuidou da sua mãe durante toda a vida]. Eu queria ter feito por amor o que só fiz por um sentimento de dever. É isso que me dói.

-Um talho pode não doer muito na hora em que é produzido, mas deixa uma cicatriz que, bem ou mal, a gente carrega vida em fora… Uma cicatriz que em certos dias comicha e nos leva a pensar na pessoa que nos feriu. [Ainda com rancor?] Não, Zeca, mas com uma enorme tristeza. Porque não podemos deixar de perguntar a nós mesmos se a feria era necessária.

-O fato de acreditarmos em Deus não elimina necessariamente todas as nossas dúvidas a respeito da vida e mesmo do próprio Criador. Eu cá tenho as minhas ‘diferenças’ com Deus. Qual é o filho que não briga de vez em quando com o pai? Isso significa que ele deixa de amar o Velho? Ou que cessa de acreditar na sua existência? Ou na sua bondade? Está claro que não. E vou te dizer outra coisa importante. Levantou-se, aproximou-se da panela, apanhou outro pinhão, descascou-o e ficou a comê-lo com ar distraído, como se tivesse esquecido do que ia dizer. Depois, tornou a sentar-se a meu lado e disse baixinho: “Olha. Os grandes arranha-céus têm a capacidade de oscilar com o vento… Sabias? Pois é. Se não oscilassem, viriam abaixo. Assim é a fé. Uma fé dura e inflexível pode transformar-se em fanatismo ou então quebrar-se. A fé que se verga como um junco quando passam as ventanias, essa resiste inata. Portanto, não te preocupes. Continua a duvidar. Deus está acostumado a essas nossa fraquezas”.

-O Bento é um tipo de herói cuja presença e valor ninguém nota, porque ele atomizou, fragmentou seu heroísmo em dezenas de milhares de pequenos gestos e atos cotidianos através de toda a sua vida, de tal maneira que eles não deram e não dão na vista.

– Estou de acordo com Stein num ponto. Não é com caridade que se vai conseguir melhorar a vida dessa pobre gente, mas com uma reforma social de base.  Na minha opinião, porém, a solução não está nos métodos stalinistas. Alguém escreveu que o mal de nossas revoluções é que elas começam com a violência, para imporem um ideal, mas depois o ideal fica esquecido e permanece apenas a violência.  E como é fácil recorrer a brutalidade!  Como é natural! Como isso está de acordo com a nossa condição animal. Parece fora de dúvida que a violência goza de mais popularidade que a persuasão.

Do diário de Silvia/ Erico Verissimo – 2. ed – São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

Estatísticas do La Amora!

Fico feliz pelo crescimento do Blog, que de alguma maneira já está tomando forma. Uma das primeiras publicações do La Amora mostrava uma imagem com as estatísticas (com o número de visitantes). Tínhamos recebido 557 pessoas e aquele dado já parecia grandioso. Mostro os nossos números atuais, que mesmo agora, depois de onze meses,  possuem o mesmo brilho que os primeiros. 🙂Imagem

Tomboy

Tomboy é um filme simples, que trata de um assunto complexo sem rodeios e com muita naturalidade.  O longa de 2011, dirigido por Céline Sciamma, conta a história de Laura (Zoé Héran), uma menina de onze anos que gosta de se vestir (e se comportar) como menino. A trama acompanha a adaptação de Laura e de sua pequena irmã Jeanne (Malonn Lévana) à nova casa. Seus pais se mudam constantemente e Laura se vê obrigada a fazer novos amigos. Aproveitando o fato de ser desconhecida, Laura se faz passar por um garoto. Ela se apresenta aos vizinhos como ‘Michael’ e na turma das crianças conhece Lisa (Jeanne Disson) por quem se apaixona.

Imagem

Diferente das outras garotas, Laura/Michael ainda não desenvolveu seu corpo e sua fisionomia confunde-se com a de um garoto. Ela percebe a diferença, mas sente-se insegura ao se aproximar das outras crianças. Seus questionamentos e dúvidas ficam visíveis quando Laura, em frente ao espelho, analisa se pode ou não se juntar aos outros meninos e jogar futebol sem camisa. Não há dúvidas quanto sua sexualidade e sim quanto ao seu comportamento. Laura gosta de Lisa e isso fica evidente logo nas primeiras cenas. O que a incomoda, o que lhe faz chorar sozinha no quarto, é o fato, por exemplo, de não conseguir fazer xixi em pé como os outros.

tomboy 2

É interessante como a curiosidade infantil sobre a sexualidade nasce espontaneamente. Em um cena repleta de delicadeza, Sciamma mostra Laura em frente ao espelho, observando sua fisionomia em silêncio. Ela tira a camisa, tira o short e fica lá, por um longo tempo. Suas atitudes são de uma criança tímida e em contraponto, de uma garota decidida. Não há diálogos que abordam a sexualidade de Laura, em nenhum momento a personagem aparece conversando sobre o assunto, mas as imagens dizem tudo: Laura é um menino, presa no corpo de uma menina.

A atitude de naturalidade dos pais é reforçada quando a mãe descobre que Laura se passa por menino para os amigos. Ela não lhe repreende por se vestir como homem, mas por mentir sobre sua identidade. Laura é obrigada a ir à casa de Lisa e contar que é uma menina. Toda a crueldade (e a curiosidade das crianças) se aflora e Laura é humilhada e afastada do grupo. E é dessa forma que Sciamma, com muita destreza nos dá uma bela lição que vem através de um carismático personagem, que chama a atenção durante todo o filme: Jeanne.

Com apenas cinco anos, Jeanne não se questiona sobre a irmã. Ela a ama e a defende independente de qualquer circunstância.  Tem a pureza de uma criança pequena e diferente das outras, não foi contagiada por pré-conceitos. Portanto, Jeanne mantém a mentira de Laura e diz aos amigos que tem um irmão chamado Michael. Apesar da complexidade do papel, Zoé Héran fica menor em tela quando está ao lado de Malonn Lévana. A garotinha chama atenção pela destreza e pelo rostinho cativante.

Queria também chamar atenção para um detalhe. Desde que vi Albert Nobbs, me interessei por artigos que abordam a transexualidade e em muitos há uma observação interessante que, definitivamente, se adéqua ao filme. Tomboy (ou ‘menina moleque’) refere-se a meninas que se vestem como homens, mas não é um termo que está condicionado a homossexualidade. O que os artigos querem dizer é que  nem toda lésbica gosta de se vestir de homem e nem toda mulher que gosta de se vestir de homem é lésbica. Um detalhe que parece muito evidente, mas que não é. Pelo contrário, é muito comum que as pessoas façam essa ligação que não deveria ser encarada como uma ‘regra’.