Odeio o dia dos namorados

Com uma narrativa alternada, o filme ‘Odeio o dia dos namorados’ dirigido por Roberto Santucci e roteirizado por Paulo heloisa_perisseCursino, é uma comédia leve, recheada de bom humor e romantismo.

Apesar da plasticidade (herdada da TV) e dos clichês (quase inevitáveis), somos presenteados pela atuação de Heloísa Perissé que dinamiza a trama.

O filme também conta com um elenco sensacional, entre eles os atores, estão: Daniel Boaventura, Marcelo Saback, Daniela Valente, Danielle Winits, Toni Tornado, Fernando Caruso, Júlia Rabello

Antes de ir ao cinema para vê-lo, encontrei várias críticas negativas. É engraçado como filmes desse segmento provocam certo incômodo. Confesso que também não sou muito chegada nesse tipo de produção, mas esse em especial foi uma boa surpresa. Li que Roberto Santucci e Paulo Cursino se inspiraram em “Um Conto de Natal” (de Charles Dickens) ao realizarem a trama. Em entrevista, eles afirmaram que também tiveram influência de outros filmes como ‘A felicidade não se compra’, ‘Minhas adoráveis ex-namoradas’ e ‘Odeio o dia dos namorados’ (com a Nina Vardalos). Parece que fizeram uma grande colcha de retalhos e exploraram uma estética já conhecida dos espectadores.  Gostei do filme porque ele é agradável, descomprometido e serve como uma boa opção de passatempo.

odeio_o_dia_dos_namorados_duplaNo longa, Heloisa Perisse (diferente do usual) interpreta Débora, uma publicitária de sucesso que decidiu investir na vida profissional e esquecer a afetiva.  Débora é uma mulher rude e fria que maltrata e é odiada pelos funcionários. Um dia, recebe a proposta de realizar uma campanha onde precisa falar sobre ‘amor’, ironicamente, seu cliente é Heitor (um ex-namorado que sempre foi apaixonado por ela). Durante a apresentação da campanha, Débora percebe que deixou o Ipad com os demonstrativos no trabalho e decide ir buscá-lo.  Em consequência a alta velocidade, Débora sofre um acidente que coloca a sua vida em risco. Segundos antes da morte, ela reencontra um amigo que lhe dá a oportunidade de rever toda a vida e descobrir onde errou.

Débora não só volta ao passado como também faz uma viagem pelo futuro (em uma São Paulo de 2036 onde ‘Ai se eu te pego’ virou um clássico). Há diversas referências engraçadas como ao grupo Dominó e aos Menudos. As reconstituições das roupas são mto legais…

Em uma pesquisa pela internet, encontrei a entrevista que Perissé cedeu ao Pânico, onde ela fala sobre a trama e sobre a produção, confiram!

Como me sinto quando: versão Susan Sarandon

– depois da balada a amiga diz: ‘eu nunca fiz tanta loucura!’

Thelma– O clima esquenta com o boy e ele não toma a iniciativa

Horror Picture– Todos foram pra balada e ninguém te convidou

Louise– você tenta mandar uma indireta, super direta

tumblr_mla4ac3riz1qbkh27o3_250– você tá na balada e tocam a sua músicaJanet– quando dizem: “tudo bem, pode ficar com o último pedaço do meu chocolate’

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– você está de TPM e insinuam que você está nervosa demais

tumblr_mlk6xmvlEW1qcpkfeo1_500– quando lhe dizem: Richard Gere está subindo a escada rolante com uma rosa nas mãos para te entregar

tumblr_ml5l1cF3sq1qcpkfeo8_250– você está dormindo e alguém chega e acende a luz do seu quarto

tumblr_ml3bng02Sl1qc0zrfo1_500– vocês se odeiam, mas não perdem a pose

tumblr_mlx0xtxYKk1qkxowqo7_250Susan Sarandon

O sequestro do ônibus 174, uma releitura sobre o choque do real

Em uma das reflexões iniciais de “O choque do real e a experiência urbana” Beatriz Jaguaribe afirma que a cidade (repleta de lixo, becos e fervilhantes atividades) é também cenário para a presença de novas tecnologias e meios de comunicação onde as pessoas são minadas por uma cultura do medo.

Diferente do que se imagina a “cultura do medo” não é experimentada empiricamente. Para a autora, a maioria dos cidadãos experimentam o medo (assaltos, roubos e violações) através da divulgação fílmica ou literária e todo o discurso e construção midiática influencia na criação de uma estética sobre a retratação da violência social.

onibus 174

Segundo Jaguaribe o choque do real pode ser entendido como a tentativa de provocar um efeito catártico no espectador ou leitor. Portanto a principal finalidade dessa estratégia é criar um incômodo, provocar espanto, atiçar a denuncia social e aguçar o sentimento crítico. Um aspecto importante é que o impacto não é necessariamente extraordinário, mas é exacerbado e intensificado. O real, por sua vez é como uma releitura ou uma representação do fato ao que Jaguaribe define: “o real é a existência de um mundo que independem de nós, a realidade social, em contraste, é uma fatia do real que foi culturalmente engendrada, processada e fabricada por uma variedade de discursos, perspectivas dialógicas e pontos de vista contraditórios”.

O conceito do choque do real e sua finalidade ajuda-nos a entender sua presença nos diversos meios de comunicação de massa (como a reportagem jornalística, o fotojornalismo e o cinema). As narrativas fílmicas (inclusive nos documentários) atendem ao que a autora chama de usar a verossimilhança e intensificação do real. Para ela, é comum observar a organização da narrativa para lhe dar mais fluxo e continuidade.

É importante ressaltar aqui uma observação realizada por Bill Nichols em referência aos documentários. Segundo Nichols o documentário se apoia muito menos na continuidade para dar credibilidade ao mundo a que se refere do que o filme de ficção. Percebe-se que muitas produções estão debruçadas sobre o que ele chama de montagem de evidência: “Em vez de organizar os cortes para dar a sensação de tempo e espaço únicos, unificados em que seguimos as ações dos personagens principais, a montagem de evidencia organiza-os dentro da cena de modo que se dê a impressão de um argumento único, convincente e sustentado por uma lógica”

Ônibus 174:

O sequestro ao ônibus 174 ocorreu em 12 de Junho de 2000 no bairro Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Sandro do Nascimento (então com 22 anos) invadiu o ônibus com um revolver calibre 38 com o objetivo de assaltar os passageiros. Impedido pela polícia militar, Sandro inicia um sequestro que duraria cinco horas. Toda a ação foi acompanhada e amplamente divulgada pela mídia. Dois anos depois, o episódio que marcou o povo brasileiro, foi tema para o documentário dirigido por José Padilha e Felipe Lacerda.

ônibus 174O documentário se propõe a recontar o caso através de entrevistas com os passageiros, com a polícia e com a imprensa. A produção também busca oferecer uma explicação para o episódio através de um estudo biográfico de Sandro (nele, por exemplo, temos conhecimento de que Sandro é um sobrevivente do Massacre da Candelária, que sua mãe foi assassinada quando ele ainda era muito pequeno e que sua condição marginalizada o levou a inúmeras prisões).

Sandro nasceu em 1978 e foi criado pela mãe até os seis anos (quando ela, grávida, foi assassinada na sua frente). Adotou o apelido de ‘Mancha’ e passou a ser morador de rua (viciou-se em drogas, nunca aprendeu a ler ou escrever e Sequestro onibus 174teve inúmeras passagens em instituições de jovens delinquentes).  Seus únicos contatos familiares (com forte alusão a figura materna) foram: sua tia Julieta, a assistente social Yvone Bezerra e a mãe Dona Elza da Silva. O sequestro ao ônibus 174 ocorreu em Junho. Sandro fez 11 pessoas de reféns. Após o sequestro (que resultou na morte da estudante Geisa), Sandro foi imobilizado pela Polícia e morreu asfixiado na viatura.

Há muitos aspectos que chamam atenção sobre o caso do ônibus 174 e Jaguaribe sabiamente destaca um deles: “o revelador e o inusitado do sequestro ao ônibus não é a trajetória terrível de Sandro. Não é a morte absurda da jovem Geisa, nem a espantosa incompetência da polícia e das autoridades, nem mesmo a condição execrável das prisões no Brasil. O que marca singularmente o episódio é a sua completa visibilidade midiática que fez com que esses terríveis ingredientes ganhassem projeção diante as câmeras”.

O documentário e o filme sobre o caso 174 adéquam-se ao que a autora chama de tradição do naturalismo e brutalismo, afinal, contam a história do “realismo sujo das ruas”, retratam a violência em situações limites e ilustram a precariedade e marginalização das classes mais baixas. É interessante observar que a mídia visual possui mais força do que a escrita – comprovado no que presenciamos com o sequestro: o espetáculo, a abundância de informações e uma incansável repetição. O que nos leva a questionar a função da mídia nesses acontecimentos… Apesar de romper com a causalidade e oferecer uma experiência intensa ao espectador (principalmente através da tragédia) o choque é silenciado pela banalidade.

Para a autora, a atitude blasé se justifica pelo medo. As pessoas, embora atentas ao entretenimento, temem que esse choque seja transferido para sua particularidade.  Todo esse cenário funciona como um efeito cíclico, o espectador tem medo, mas procura tais emoções para revitalizar seu cotidiano entediante, a mídia por outro lado, cria o imaginário do risco e depende da circulação da narrativa sobre a violência. Ou seja, o contado do espectador com a metrópole, resume-se em voyeurismo.

onibus-174“O boom de biografias, livros de reportagem, documentários, filmes e narrativas realistas não é uma novidade para o público brasileiro, mas o que marca a produção recente é o forte apelo ao retrato da realidade em fase da violência urbana.”

A atitude blasé é muito bem ilustrada através do documentário sobre o ônibus 174 na entrevista com o sociólogo Luís Eduardo Soares:

“Esse Sandro é um exemplo dos meninos invisíveis que eventualmente emergem e tomam a cena e nos confrontam com a sua violência que é um grito desesperado e impotente. A nossa incapacidade de lhe dar com nossos dramas: com a exclusão social, com o racismo. Nos aprendemos a viver tranquilamente com os Sandros, com as tragédias e com os filhos das tragédias. Isso se converteu em parte do nosso cotidiano. A grande luta desses meninos é contra a invisibilidade. Nos não somos ninguém e nada se alguém não nos olha e nos reconhece, nos dá valor, não preza nossa existência, não devolve a nos a nossa imagem ungida de algum brilho, de alguma vitalidade ou reconhecimento. Esses meninos (de rua) estão famintos de existência social. Um menino negro, pobre, transita invisível pelas ruas brasileiras. Há duas maneiras de se produzir invisibilidade: esse menino é invisível porque nós não o vemos, nos negligenciamos a sua presença. Ou porque projetamos sobre ele um estigma, uma caricatura, um preconceito  .”

Para Beatriz Jaguaribe é importante observar que apesar dessa falta de atitude dos espectadores e cidadãos não há uma divisória rígida nem uma cultura do apartheid. Distintas realidades entram em conflito na metrópole, são confrontos acirradamente desiguais, violentamente injustas, altamente discriminatórias quanto ao gênero, raça e cor. Há uma troca, uma hibridação contínua de símbolos e culturas.

Gal e eu

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Gal Costa esteve ontem em Belo Horizonte a convite da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais e maravilhosamente, cantou diversos sucessos de sua carreira (como Folhetim/Camisa Amarela). Por sorte fiquei sabendo da sua presença na capital mineira através de uma página argentina em sua homenagem. Os ingressos começaram a ser vendidos há um mês (e por falta de atenção ao boletim mensal do Palácio das Artes, soube em cima da hora). Minha mãe foi ao PDA  comprar um ingresso e eles estavam esgotados. Fiquei desesperada: há tanto tempo espero por ela e agora que ela está aqui, tão pertinho eu não consigo ingresso. Chorei, esperneei, fiz uma promessa de que se conseguisse entrar, ficaria dois dias sem falar nada. Cheguei lá mais cedo e fiquei rondando por um cambista. Consegui um ingresso (um pouquinho mais caro) e tive a felicidade de vê-la de pertinho, foi lindo.

Hoje eu poderia escrever um texto impessoal e informativo, apresentando as músicas e observando os aspectos estéticos e técnicos do show. Mas uma publicação sobre ela, cantora que eu tanto admiro, não poderia ser simplista assim. Peço desculpas pela repetição, pelo pieguismo… mas quando o assunto é Gal Costa, eu me derreto.

Como já disse aqui no La Amora, nutro uma sincera admiração por vários artistas. Sou fã da Susan Sarandon e da Jessica Lange, por exemplo. Mas quando o assunto é Gal Costa o sentimento que eu tenho é completamente diferente. Gal foi a voz de uma geração, aliás: foi a voz de uma nação: do meu país. Ontem antes de dormir, fiquei me lembrando dos diversos contextos em que sua voz esteve presente na minha vida e no quanto sou encantada por ela. Parece que Gal tem um “feitiço”, uma energia ou um poder que te sensualiza e te encanta.

Quando eu era pequena minha mãe dizia que os meus cabelos soltos pareciam com os de Gal. “Tá lindo, tá Gal”. Por uma inocência eu achava que cabelo bonito era cabelo liso: então quando ela dizia que parecia Gal eu ficava com tanta raiva! Um dia, cheguei na escola com os cabelos soltos e um colega disse: tomou choque? Tá parecendo a GalGAL COSTA! (foi terrível!). Fiquei com vergonha, morrendo de raiva e não podia prender o cabelo porque não tinha levado a presilha. Passei o dia sentada na carteira, querendo sumir e desde então, não fui a escola de cabelo solto (até que aprendi a fazer escova). Ironicamente, meus cabelos não possuem os mesmos cachos e eu sempre tento fazê-los parecer mais volumosos.  Acho o cabelo da Gal Costa tão lindo, tão lindo que admito que gostaria de ter um igual.

Outra lembrança que eu tenho é de assistir um programa na TV Cultura onde Gal cantava acompanhada por uma guitarra. O cara tocava um nota e Gal repetia com a voz. Achei aquilo belíssimo. Passei a imitá-la dentro de casa interminavelmente. Tínhamos um cd e que eu não me cansava de ouvir. Um dia apareceu um cd igualzinho, não sei como aquilo foi parar lá e então eu o levava comigo, dentro da mochila da escola. Um ficava comigo e o outro em casa. Meses depois descobri que era da vizinha (mas eu não devolvi). Um deles se perdeu mas o outro está aqui, um pouco rabiscado de caneta, mas a salvo.

GAL COSTASó fui entender a importância da Gal no ensino médio, quando me ensinaram direito o que foi a ditadura no Brasil (sobre os movimentos culturais, sobre o tropicalismo). Desde então as músicas dos Doces Bárbaros (e as músicas da Elis Regina, inevitável) era o que tocava no meu celular. Eu escutava o dia inteiro, sabia de cor e salteado.

Foi nessa época que comecei a alimentar uma vontade louca de ir a um show dela, de vê-la de pertinho (como o fiz ontem). Porque Gal é inspiração, é sinônimo de beleza e de força: de coragem. Conheci um rapaz chamado Lucas no Palácio, ele estava sozinho (assim como eu), tem 17 anos e é apaixonado por Gal (a quem chama de diva). Conheci Marina e Camila, duas meninas de 21 e 19 anos que a amam. Conversei com uma senhora antes de entrar para o show, ela era bem velhinha e disse: “A Gal tem uma energia que nenhuma outra cantora tem”. Quando entrei no ônibus para vir para casa, dois rapazes estavam conversando no banco de trás, falando sobre a Gal e sua voz. Eu me senti tão bem, tão feliz! Quer dizer: olha só quanta gente!

O show foi lindo, já no final o público saiu das cadeiras e se aglomerou ao palco. Lá estava eu, bem pertinho dela. Gal foi chamada de volta várias vezes, não queríamos deixá-la ir.

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