Bon appetit

POST EM CONSTRUÇÃO

A vontade de falar sobre a temática desses filmes não é nova. Desde o início do Blog fiquei me perguntando como abordar um assunto tão complexo e ao mesmo tempo, tão curioso. Quem me conhece sabe da paixão que tenho pelo filme dirigido em 1989 por Peter Greenaway: O cozinheiro, o ladrão, sua mulher e o amante.  Com o tempo conheci outros filmes que abordam (também de forma surpreendente) uma função natural e cotidiana do ser humano: COMER.

Como este texto é apenas uma singela análise (mas contém imagens, vídeos e spoilers), recomendo que não leia se tiver curiosidade de assisti-los. Nesta publicação vamos falar de: Titus, Estômago e O cozinheiro, o ladrão, sua mulher e o amante. Não se engane com os títulos, a história de cada um deles é muito interessante e todos os três valem a pena serem vistos (e revistos).

O que esses filmes tem em comum?  Pois eu respondo agora: Canibalismo. Não há nada de novo quando se trata do ato “comer”, muito menos de “comer gente”.  Os astecas sacrificavam e comiam os guerreiros prisioneiros de guerra de outras tribos. No Brasil, índios Pacura da Amazônia engordavam seus companheiros para depois comê-los. Casos como o Armin Meiwes ou Fritz Haarmann chocaram o mundo e estamparam os jornais. No cinema, não foi diferente.

Quando fui assistir O cozinheiro, o ladrão, sua mulher e o amante pensei que a minha melhor surpresa seria ver Helen Mirren numa versão sensual e despojada, mas o  filme vai muito além da atuação de Mirren: Greenaway tem um trabalho artístico tão forte, que consegue fazer com que os atores passem a fazer parte do cenário (e vice-versa).

PDVD_006

 PDVD_052

A história se passa no restaurante Le Hollandais, cujo dono Albert Spica (belissimamente interpretado por Michael Gambon) é um sangrento mafioso que adora comida francesa e janta todos os dias no mesmo lugar. Sua mulher, Georgina Spica possui um paladar mais afinado e sempre recebe pratos especiais feito pelo simpático chefe de cozinha Richard Borst. No mesmo restaurante, Giorgina conhece o bibliotecário Michael (Alan Howard): Os dois começam um fervoroso caso e são acobertados pelo chefe de cozinha.

Como um déspota, Albert escolhe os pratos conforme seus desejos, come enquanto conversa (ou grita), esparrama bebida pela roupa, bate na mulher, grita com os capangas e mata ali mesmo quem o desafia. Seu tom de raiva ilustra sua enorme ambição por poder. Aliás, todos os capangas que estão ali, sentados a mesa entorno de Albert ilustram muito bem a junção de medo e ambição: estão naquele restaurante celebrando o interesse e a insegurança.

PDVD_020

O assombroso delírio proposto pelo filme é a junção de situações chocantes: Logo no começo, há uma cena escatologica: vemos um homem nu entre cachorros. Sua feição é de evidente tortura. Albert o obriga a comer o cocô dos animais e depois o abandona ali, sem nenhuma piedade. Em outro momento, Albert descobre o segredo da mulher e obriga uma criança (que era um informante dos amantes) a comer os botões da roupa até confessar onde Giorgina estava escondida.  Ele chega até o amante e o obriga a comer as páginas do seu livro preferido, até matá-lo sufocado.

PDVD_012

PDVD_026

PDVD_064_orig

Se há algo magnífico, que me encanta nesse filme, é a arte com as cores. Com uma mistura lírica entre ópera, comida e pintura, os personagens (como disse antes) passam a fazer parte do cenário. Quando estão comendo, o ambiente é todo vermelho: inclusive a roupa dos personagens. A cor do banheiro é branca, a da cozinha é verde e a da biblioteca: marrom e dourado. E quando transitam entre os ambientes, as roupas também vão mudando de cor.  O diretor explicou a escolha:

“A cozinha é verde porque representa a floresta de onde vem todo o alimento; o restaurante é vermelho por ser onde toda a violência ocorre; o banheiro, onde os amantes fazem amor pela primeira vez, é como o paraíso, e como tal ele tinha de ser branco; tem uma breve sequência no hospital que é iluminada com amarelo porque para mim é a cor das crianças, dos ovos, dos recém-nascidos; e finalmente a cor da biblioteca que é ouro, representando ‘a época dourada do aprendizado’, o idílico tempo em que tudo no Jardim do Éden era maravilhoso”

O quadro “Banquete dos Oficiais da Companhia da Guarda de São Jorge”, do holandês Frans Hals (1580-1666), que fica pendurado na parede do restaurante é o sinal mais evidente do perfil (e ligação) artístico do diretor. Há também um garotinho (aquele que é obrigado a comer botões), que aparece em momentos do filme, cantando uma música lírica e trágica: simboliza o coro das tragédias gregas, que Greenaway explica brilhantemente: “No mundo antigo, os romanos e os gregos sempre pensaram que a alma residia no abdômen; apenas os cristãos acreditavam que ela habitava o peito. As civilizações primitivas ensinaram que a barriga é o centro do corpo e sua própria gravidade, mas o cristianismo subverteu esse princípio ao considerar o coração como o âmago do homem”.

Pois então, chegamos ao momento mais aflamado da história. Georgina vive com o amante um sentimento que não tinha quando estava com Albert: sente-se livre, sem medo. Ao chegar à biblioteca e encontrar Michael morto, rodeado de livros e folhas de papel é tomada por uma ânsia desesperadora. Deita-se ali mesmo, junto ao corpo do amante e chora sua infelicidade de não conseguir protegê-lo.  Com muito custo, convence o chefe de cozinha a preparar o seu prato mais inusitado: o corpo de Michael.

PDVD_109

Como um ritual de despedida, entra com o corpo assado do amante e obriga o marido a comê-lo. Ironiza que não seria nenhum sacrifício, já que o próprio Albert prometera que mataria e comeria o homem que se atrevesse a dormir com Georgina. Esse momento é indescritível, há uma riqueza de detalhes tamanha: desde a música às roupas. A inversão de papeis ocorre justamente aí: Agora quem tem medo é Albert, é ele que se sente inseguro e incrédulo

– Jesus!

– Não é Jesus, Albert é o Michael… Meu amante!

Georgina obriga o marido a começar pelo pênis do amante.

-“Bon appetit, Albert.That’s French”  (bom apetite, é francês).

Final III[5]

O HIV não tem cara

Joann Santangelo decidiu fotografar portadores do vírus HIV para ajudar a diminuir os estigmas que rondam a doença e promover as estatísticas reais da doença. Estima-se que existam 33 milhões de pessoas em todo o mundo com HIV/AIDS. 490,696 vivem na América.  O projeto chamado: Austin Faces AIDS: Portraits of People Living with HIV and AIDS é o resultado de um ano de visitas do fotógrafo que também gravou o depoimento dessas 16 pessoas. O projeto mostra que pessoas hoje em dia conseguem viver bem com o vírus, diferente da realidade de anos atrás quando a doença surgiu.

Cris, contaminado há 25 anos.

rsz_h570_4_446

Derrick, contaminado há 26 anos.

rsz_h570_4_442

Shawn, contaminado há 22 anos:

rsz_h570_4_450

Dennis, contaminado há  18 anos e Lorenzo há 14:

rsz_h570_4_445

Tim, contaminado há 14 anos:

rsz_h570_4_434

Henry, contaminado há 15 anos: rsz_h570_4_13

Gary, contaminado há 26 anos:

rsz_h570_4_424

Clara, contaminada há 15 anos:

rsz_h570_4_439

Guy, contaminado há 25 anos:

rsz_h570_4_448

Yolanda, contaminada há 3 anos:

rsz_h570_4_437

hiv-1

Cris, contaminado há 4 anos:

HIV

Gina, contaminada há 26 anos:

rsz_h570_4_426

Philip, contaminado há 25 anos:

HIV2

Huppert para os belorizontinos

Imagem do filme "Bella addormentata"
Imagem do filme “Bella addormentata”
"
Isabelle Huppert em “Em nome de Deus”

É difícil (muito difícil mesmo) encontrar um filme com Isabelle Huppert nos cinemas de Belo Horizonte.  Pois estamos com sorte. Há dois filmes dela em cartaz nas salas alternativas de BH. Hoje no Cine 104 começa a VIII Semana Venezia Cinema no Brasil e ela será aberta justamente com um filme da Huppert: “Bella Addormentata”, dirigido por Marco Bellocchio.  O filme trata do polêmico caso que dividiu a Itália em 2009, quando o pai de Eluana Englaro, uma mulher de 38 anos que estava em coma desde um acidente de carro 17 anos antes decidiu suspender sua alimentação artificial.

A trama mistura imagens reais de TV e personagens de ficção e exibe uma reconstrução do acalorado debate sobre a morte de Englaro. Vários ativistas cercaram a clínica onde estava internada para protestar contra a decisão do pai e até o então primeiro-ministro Silvio Berlusconi tentou impor uma lei que forçaria os médicos a retomar a alimentação de Eluana através de um tubo.

O outro filme está em cartaz no Belo Artes, “Em Nome de Deus”, dirigido por Brillante Mendoza é uma produção da Filipinas, França e Alemanha que conta a seguinte história: Baseado em um fato real que ocorreu em 2001. Um grupo de homens armados e mascarados, pertencentes à associação muçulmana Abu Sayyaf, invade o hotel de uma ilha turística e sequestra doze hóspedes estrangeiros. O ataque tinha como alvo inicial empregados do Banco Mundial, que já haviam deixado o local.

O grupo então sequestra turistas e missionários cristãos, que são forçados a fazer um cansativo percurso a pé pela selva filipina. Aos poucos, o clima de medo, preconceito e ódio se transforma em uma relação pautada por uma estranha simbiose. O filme integrou a Seleção Oficial do Festival de Berlim.

Os Horários para o Belas são:
14h30 16h50 19h10 21h30

Rua Gonçalves Dias, 1581 – Lourdes

VIII_Semana Venezia

Confira a programação gratuita da VIII Semana Venezia Cinema no Brasil:

Terça-feira, 04 de dezembro
19h | Bella Addormentata | de Marco Bellocchio | Itália/França, 2012, 115’ |
21h | Roma,ore 11 | de Giuseppe De Santis | Itália, 1952, p/b, 105’ (película restaurada, projetada como pré-abertura do evento na Itália em agosto, celebrando seus 60 anos de primeira projeção)
Entrada gratuita com retirada de ingressos uma hora antes do início da sessão

Quarta-feira, 05 de dezembro
19h | Un giorno speciale | de Francesca Comencini | Itália. 2012, 90’ |
21h | È stato il figlio | de Daniele Ciprì | Itália /França, 2012, 90’ |
Entrada gratuita com retirada de ingressos uma hora antes do início da sessão

Quinta-feira, 06 de dezembro
19h | Gli equilibristi | de Ivano De Matteo | Itália /França, 2012, 100’ |
21h | L’intervallo | de Leonardo Di Costanzo |Itália /Alemanha/Suíça, 2012, 86’ |
Entrada gratuita com retirada de ingressos uma hora antes do início da sessão

Sexta-feira, 07 de dezembro
19h | Roma,ore 11 | de Giuseppe De Santis Itália – 1952, p/b, 105’ (película restaurada, projetada como pré-abertura do evento na Itália em agosto, celebrando seus 60 anos de primeira projeção)
21h | Bella Addormentata | de Marco Bellocchio | Itália /França, 2012, 115’
Entrada gratuita com retirada de ingressos uma hora antes do início da sessão

Sábado, 08 de dezembro
19h | È stato il figlio | de Daniele Ciprì | Itália /França, 2012, 90’
21h | Un giorno speciale | de Francesca Comencini | Itália, 2012, 90’
Entrada gratuita com retirada de ingressos uma hora antes do início da sessão

Domingo, 09 de dezembro
19h | L’intervallo | de Leonardo Di Costanzo, Itália /Alemanha e Suiça – 2012, 86’
21h | Gli equilibristi | de Ivano De Matteo | Itália /França, 2012, 100’
Entrada gratuita com retirada de ingressos uma hora antes do início da sessão

Crimes do Coração

Na minha ânsia de assistir os filmes de Jessica Lange e correr para comentar no LA AMORA, vi o trailer de “Crimes do Coração” de 1986 pelo Youtube. Em um dos comentários diziam: “Fuja dos filmes dirigidos por Bruce Beresford”. Bom, foi uma pena não ter dado ouvidos ao comentário – não vou generalizar, até porque não vi outro filme de Beresford (nem mesmo Conduzindo Miss Daisy – mas digo com toda veemência que “Crimes do Coração” é um filme mediano.

Crimes do Coração

Antes mesmo de toda essa história de gostar da atriz, esse era um dos filmes que estavam na minha lista. Sempre achei que um longa que junta Jessica Lange, Sissy Spacek e Diane Keaton teria todas as disposições para se tornar um clássico, principalmente por apresentar a possibilidade mais sublime de dramatização.

A história em si é bem interessante e o roteiro (ainda que fraco) possui pontos que chamam a atenção: o problema é o resultado, a junção que não deu certo – ficou inacabado, com um ar de quero mais. Em suma, a sensação que tive no final foi de que perdi meu tempo. A história é a seguinte:

“Lennora Josephine Magrath (Diane Keaton), Margaret Magrath (Jessica Lange) e Rebeca Magrath Botrelle (Sissy Spacek) são irmãs com personalidades e modos de vida bem diferentes. Elas se reúnem quando a mais jovem, Rebeca, atirou no marido dela, Zackery (Beeson Carroll). A irmã mais velha, Lennora, cuida do avô delas e está se transformando em uma empregada, enquanto Margaret tenta fazer carreira em Hollywood como atriz e cantora e teve uma vida intensa, preenchida por muitos homens. O encontro delas causa muita alegria, mas também muitas tensões.”

Algumas coisas vão se encaixando ainda que vagarosamente. Aos poucos você entende que o comportamento agressivo de Margaret é reflexo do trauma profundo que sentiu ao encontrar a mãe morta (enforcada, junto com um gato amarelo).  E que essa morte provocou marcas em todas as três, mas de formas e intensidades bem diferentes. É absolutamente normal que a personalidade das três sejam diferentes, afinal: são idades e perspectivas distintas.  As atuações são ótimas, um aplauso especial para Keaton.

tumblr_m8sffwpBYU1rrp3t2o1_1280

Desde que vi “O Clube das Desquitadas” ligo Diane Keaton a uma mulher tímida, insegura e problemática: parece que essas características ficaram tão marcadas que se repetiram inúmeras vezes na carreira dela.  Ok, Lennora veio bem antes do Clube, mas ela guarda os mesmos resquícios e para mim é uma das personagens mais interessantes. Por que ficou em casa cuidando do avô? Por que não namora? Lennora tem uma solidão que esvai pelos olhos, se refugia nas velhas manias da avó de cuidar do jardim. {Talvez} Por ser a mais velha, poderia ser o ponto de equilíbrio da família, mas diante das situações: está muito longe disso.

 Só não me digam, por favor, que esse é um “drama feminista” (foi o que eu li no Filmow e discordo bastante). Conta a história de mulheres, mas não é um longa feminista. Ele retrata uma mulher desiludida com a vida porque não casou, outra que é infiel (e que merece ir a cadeia) porque tentou matar o marido e depois foi fazer limonada e de outra que é uma mulher linda, porra-louca e que encanta os homens e depois os abandona. Durante todo o filme, o diretor nos dá motivo para culpá-las, entende?

Se me permitem uma última observação, fiquei surpresa em um dos momentos do filme. Rebeca conta para a irmã mais velha que traiu o marido com jovem de 15 anos. A resposta de Margaret é tão surpreendente que quase me fez cair da cadeira: “Mas ele é negro! Já pensou no que isso pode representar para você?” Na boa, eu achei que ela diria: Ele é menor de idade, isso é pedofilia! hahaha… Mas não, a reação foi totalmente diferente.

O Pediatra

Nelson Rodrigues

O PEDIATRA , NELSON
Saiu do telefone e anunciou para todo o escritório:

— Topou! Topou!

Foi envolvido, cercado por três ou quatro companheiros. O Meireles cutuca:

— Batata?

Menezes abre o colarinho: — “Batatíssima!”. Outro insiste:

— Vale? Justifica?

Fez um escândalo:

— Se vale? Se justifica? Ó rapaz! É a melhor mulher do Rio de Janeiro! Casada e te digo mais: séria pra chuchu!

Alguém insinuou: — “Séria e trai o marido?”. Então, o Menezes improvisou um comício em defesa da bem-amada:

— Rapaz! Gosta de mim, entende? De mais a mais, escuta: o marido é uma fera! O marido é uma besta!

Ao lado, o Meireles, impressionado, rosna:

— Você dá sorte com mulher! Como você nunca vi! — E repetia, ralado de inveja: — Você tem uma estrela miserável!


O AMOR IMORTAL


Há três ou quatro semanas que o Menezes falava num novo amor imortal. Contava, para os companheiros embasbacados: — “Mulher de um pediatra, mas olha: — um colosso! “. Queriam saber: — “Topa ou não topa?”. Esfregava as mãos, radiante:

— Estou dando em cima, salivando. Está indo.

Todas as manhãs, quando o Menezes pisava no escritório, os companheiros o recebiam com a pergunta: — “E a cara?”. Tirando o paletó, feliz da vida, respondia:

— Está quase. Ontem, falamos no telefone quatro horas! Os colegas pasmavam para esse desperdício: – “Isso não é mais cantada, é …E o vento levou”. Meireles sustentava o princípio que nem a Ava Gardner, nem a Cleópatra justificam quatro horas de telefone. Menezes protestava:

— Essa vale! Vale, sim senhor! Perfeitamente, vale! E, além disso, nunca fez isso! É de uma fidelidade mórbida! Compreendeu? Doentia!

E ele, que tinha filhos naturais em vários bairros do Rio de Janeiro, abandonara todos os outros casos e dava plena e total exclusividade à esposa do pediatra. Abria o coração no escritório:

— Sempre tive a tara da mulher séria! Só acho graça em mulher séria!

Finalmente, após quarenta e cinco dias de telefonemas desvairados, eis que a moça capitula. Toda a firma exulta. E o Menezes, passando o lenço no suor da testa, admitia: — “Custou, puxa vida! Nunca uma mulher me resistiu tanto!”. E, súbito, o Menezes bate na testa:

— É mesmo! Está faltando um detalhe! O apartamento! Agarra o Meireles pelo braço: — “Tu emprestas o teu?”. O outro tem um repelão pânico:

— Você é besta, rapaz! Minha mãe mora lá! Sossega o periquito!

Mas o Menezes era teimoso. Argumenta:

— Escuta, escuta! Deixa eu falar. A moça é séria. Séria pra burro. Nunca vi tanta virtude na minha vida. E eu não posso levar para uma baiúca. Tem que ser,olha: — apartamento residencial e familiar. É um favor de mãe pra filho caçula.

O outro reagia: — “E minha mãe? Mora lá, rapaz!”. Durante umas duas horas, pediu por tudo:

— Só essa vez. Faz o seguinte: — manda a tua mãe dar uma volta. Eu passo lá duas horas no máximo!

Tanto insistiu que, finalmente, o amigo bufa:

— Vá lá! Mas escuta: — pela primeira e última vez! Aperta a mão do companheiro:

— És uma mãe!


DECISÃO


Pouco depois, Menezes ligava para o ser amado: — Arranjei um apartamento genial.

Do outro lado, aflita, ela queria saber tudinho: “Mas é como, hein?”. Febril de desejo, deu todas as explicações: — “Um edifício residencial, na rua Voluntários. Inclusive, mora lá a mãe de um amigo. Do apartamento, ouve-se a algazarra das crianças”. Ela, que se chamava Ieda, suspira:

— Tenho medo! Tenho medo!

Ficou tudo combinado para o dia seguinte, às quatro da tarde. No escritório, perguntaram:

— E o pediatra?

Menezes chegou a tomar um susto. De tanto desejar a mulher, esquecera completamente o marido. E havia qualquer coisa de pungente, de tocante, na especialidade do traído, do enganado. Fosse médico de nariz e garganta, ou simplesmente de clínica geral, ou tisiólogo, vá lá. Mas pediatra! O próprio Menezes pensava: — “Enquanto o desgraçado trata de criancinhas, é passado pra trás!”. E, por um momento, ele teve remorso de fazer aquele papel com um pediatra. Na manhã seguinte, com a conivência de todo o escritório, não foi ao trabalho. Os colegas fizeram apenas uma exigência: — que ele contasse tudo, todas as reações da moça. Ele queria se concentrar para a tarde de amor. Tomou, como diria mais tarde, textualmente, “um banho de Cleópatra”. A mãe, que era uma santa, emprestou-lhe o perfume. Cerca do meio-dia, já pronto e de branco, cheiroso como um bebê, liga para o Meireles:

— Como é? Combinaste tudo com a velha?

— Combinei. Mamãe vai passar a tarde em Realengo. Menezes trata de almoçar. “Preciso me alimentar bem”, era o que pensava. Comeu e reforçou o almoço com uma gemada. Antes de sair de casa, ligou para Ieda:

— Meu amor, escuta. Vou pra lá. E ela:

— Já?

Explica:

— Tenho que chegar primeiro. E olha: vou deixar a porta apenas encostada. Você chega e empurra. Não precisa bater. Basta empurrar.

Geme: — “Estou nervosíssima!”.

E ele, com o coração aos pinotes:

— Um beijo bem molhado nesta boquinha.

— Pra ti também.


ESPANTO


Às três e meia, ele estava no apartamento, fumando um cigarro atrás do outro. Às quatro, estava junto à porta, esperando. Ieda só apareceu às quatro e meia. Ela põe a bolsa em cima da mesa e vai explicando:

— Demorei porque meu marido se atrasou.

Menezes não entende: — “Teu marido?”, e ela:

— Ele veio me trazer e se atrasou. Meu filho, vamos que eu não posso ficar mais de meia hora. Meu marido está lá embaixo, esperando.

Assombrado, puxa a pequena: — “Escuta aqui. Teu marido? Que negócio é esse? Está lá embaixo! Diz pra mim: — teu marido sabe?”. Ela começou:

— Desabotoa aqui nas costas. Meu marido sabe, sim. Desabotoa. Sabe, claro.

Desatinado, apertava a cabeça entre as mãos: — “Não é possível! Não pode ser! Ou é piada tua?”. Já impaciente, Ieda teve de levá-lo até a janela. Ele olha e vê, embaixo, obeso e careca, o pediatra. Desesperado, Menezes gagueja: — “Quer dizer que…”. E, continua: “Olha aqui. Acho melhor a gente desistir. Melhor, entende? Não convém. Assim não quero”.

Então, aquela moça bonita, de seio farto, estende a mão:

— Dois mil cruzeiros. É quanto cobra o meu marido. Meu marido é quem trata dos preços. Dois mil cruzeiros.

Menezes desatou a chorar.


O texto acima foi extraído do livro “
A vida como ela é…”, Companhia das Letras- São Paulo, 1992, pág. 12.

um fim de semana qualquer…

Só um comentário sobre o meu fim de semana:

Nem todo mundo gosta de conversar de cinema comigo, sou bem chata na maioria das vezes. Ou me empolgo demais por alguma coisa ou faço o inferno por outra que não gosto. Num desses dias, conversei com uma amiga do emprego sobre uma das funções do cinema: ENTRETENIMENTO.  De qualquer forma, eu não consegui discordar do que ela dizia por que tinha toda a razão quando falava que o cinema não serve só para provocar reflexões sobre algum tema complexo. Tive que concordar que é muito bom ir ao cinema descompromissado, sentar e ver um filme qualquer que te faça esquecer por alguns minutos os problemas da vida.

No final das conAmanhercertas, a conversa chegou exatamente ao ponto em que ela queria: Amanhecer (aquele de vampiros com Kristen Stewart e Edward Cullen). Fã incondicional da série, falava com a boca cheia da beleza e do romantismo entre dois vampiros. Minha língua coçava para dizer que a percepção que eu tenho de vampiro é bem diferente. Algo próximo a Nosferatu ou Lestat… Na verdade não tive nem tempo de indicar um dos meus  favoritos sobre o tema: “Fome de Viver” (com Susan Sarandon e Catherine Deneuve).

Naquele dia fiquei sabendo de toda a história, do começo ao fim. Não vou esconder: já li o primeiro livro por indicação de um ex-namorado. Mas não era o que eu gostava, não mesmo. Saí do emprego, resmungando comigo: Como é que essa mulher perde esse tempo com essas bobeiras? Pensei em voltar inúmeras vezes para falar que existe filmes melhores do que aquele (e todas aquelas coisas que a gente faz, quando tem certeza que esta certo).

Fila no Shopping Cidade para ver Amanhecer.
Fila no Shopping Cidade para ver Amanhecer.

Acontece que no final de semana passado, saí com algumas amigas e todas elas resolveram que queriam ver o tal filme dos vampiros. Eu não iria e nem poderia ser desagradável num momento tão gostoso daquele. “O que importa é a companhia”, pensei. E fui para a sala de cinema. O que vi, foi uma fila subindo as escadas, as pessoas entupiam o lugar de espera justamente para ver o mesmo filme que eu.

Comecei a ver o filme com as mãos na bochecha mostrando todo o meu tédio de estar ali. Tudo bem que Amanhecer peca em alguns quesitos: um bebê computadorizado, vampiras brasileiras desconectas (e toda aquela coisa).  Mas o filme foi segurando a minha atenção: não conseguia nem piscar na hora da luta final e achei um máximo a jogada da autora.  Quer dizer, no fim da conta: não saí fã da Saga Crepúsculo, mas imensamente satisfeita em ENTRETER o meu domingo.  E saí, me sentindo um pouco culpada, quer dizer: Por quê não? Porque julgar antes de conhecer né?