Não estás deprimido, estás distraído

Outro dia vasculhando a internet em busca de uma música da Mercedes Sosa, descobri Facundo Cabral e de lá não consegui mais parar de ver seus vídeos e ouvir suas músicas. Esse é um texto que está disponível também em vídeo com a narração do próprio autor. O link abaixo é narração do texto complepto,  por isso o vídeo tem quase uma hora de duração. O texto é lindo e vale a pena conferir!

Não estás deprimido, estás distraído, distraído da vida que lhe habita.Tens coração, cérebro, alma e espírito… então como podes sentir-se pobre e desprezado? Distraído em relação à vida que te rodeia: Golfinhos, bosques, mares, montanhas, rios.

Não caias como caiu teu irmão que sofre por um único ser humano, quando no mundo existem cinco mil e seiscentos milhões. Além de tudo, não é assim tão ruim viver só. Eu fico bem, decidindo a cada instante o que desejo fazer, e graças à solidão conheço-me, oque é algo fundamental para viver.

Não caias no que caiu teu pai, que se sente velho porque tem setenta anos, e esquece que Moisés comandou o Êxodo aos oitenta e Rubinstein interpretava Chopin com uma maestria aos noventa. Só para citar dois casos conhecidos.

Não estás deprimido, estás distraído, por isso acreditas que perdeste algo, o que é impossível, porque tudo te foi dado. Não fizeste um só cabelo de tua cabeça, portanto não podes ser dono de nada.

Além disso, a vida não te tira coisas, a vida te liberta de coisas. Te alivia para que voe mais alto, para que alcances a plenitude. Do útero ao túmulo, vivemos numa escola, por isso, o que chamas de problemas são lições.

E a vida é dinâmica, por isso está em constante movimento, por isso que devemos estar atentos ao presente, por isso que minha mãe dizia: eu me encarrego do presente, o futuro é assunto de Deus. Por isso Jesus dizia: o amanhã não interessa ele trará novas experiência a cada dia lhe basta com sua própria vontade.

Não perdeste nada, aquele que morre simplesmente está adiantado em relação a nós, porque para lá vamos todos. Além disso, o melhor é o amor que segue em teu coração. Quem poderia dizer que Jesus esta morto? Não existe a morte: existe mudanças.

E do outro lado te esperam pessoas maravilhosas: Gandhi, Michelangelo, Whitman, São Agostinho, a Madre Teresa, teu avô e minha mãe, que acreditavam que a pobreza está mais próxima do amor, porque o dinheiro nos distrai com coisas demais, e nos machuca, porque nos torna desconfiados.

Não encontras a felicidade e é tão fácil, só deves escutar teu coração antes que lhe intervenha tua cabeça, que está condicionada pela memória, e complica tudo com coisas velhas, com ordens do passado, com o prejuízo que adoenta, que acorrenta. A cabeça que divide, quer dizer empobrece. A cabeça que não aceita que a vida é como é e não como deveria ser.

Faz apenas o que amas e serás feliz e aquele que faz o que ama, está benditamente condenado ao sucesso, que chegará quando deve chegar, porque o que deve ser será, e chegará naturalmente. Não faças nada por obrigação nem por compromisso, apenas por amor.

Então terás plenitude, e nessa plenitude tudo é possível. E sem esforço, porque és movido pela força natural da vida, a que me levantou quando caiu o avião que levava minha mulher e minha filha; a que me manteve vivo quando os médicos me deram três ou quatro meses de vida.

Deus te tornou responsável por um ser humano, e é tu mesmo. A ti deves fazer livre e feliz, depois poderás compartilhar a vida verdadeira com todos os outros. Lembra-te de Jesus : “Amarás ao próximo como a ti mesmo”. Reconcilia-te contigo, coloca-te frente ao espelho e pensa que esta criatura que estás vendo, é uma obra de Deus; e decide agora mesmo ser feliz, porque a felicidade é uma aquisição. Não algo que chegará de fora.

Aliás, a felicidade não é um direito, e sim um dever, porque se não fores feliz, estarás levando amargura para todos os que te amam. Um único homem que não possuiu nenhum talento nenhum valor para viver, mandou matar seis milhões de irmãos judeus.

Existem tantas coisas para experimentar, e a nossa passagem pela terra é tão curta, que sofrer é uma perda de tempo.

Temos que desfrutar a neve do inverno e as flores da primavera, o chocolate de Perugia, a baguette francesa, tacos mexicanos, os mares e rios de vinho chileno, o futebol brasileiro e charutos Davidoff Chez. Temos de desfrutar das Mil e Uma Noites, a Divina Comédia, Dom Quixote, Pedro Páramo boleros de Manzanero e da poesia de Whitman, Mahler, Brahms, Ravel, Debuzzi, Mozart, Schopain, Beethoven, Caravallo, Rembrandt, Velásquez, Cézanne , Picasso e Tamayo, entre tantas maravilhas.

E se estás com câncer ou AIDS, podem acontecer duas coisas, e as duas são boas; se a doença ganha te liberta do corpo que é cheio de moléstias: tenho fome, tenho frio, tenho sono, tenho vontades, tenho razão, tenho dúvidas… e se tu vences, serás mais humilde, mais agradecido, portanto, facilmente feliz. Livre do tremendo peso da culpa, da responsabilidade e da vaidade, disposto a viver cada instante profundamente,…. como deve ser.

Não estás deprimido, estás desocupado. Ajuda a criança que precisa de ti , essa criança que será sócia do teu filho. Ajuda os velhos, e os jovens lhe ajudarão quando o for. Aliás o serviço é uma felicidade segura como gozar a natureza e cuidar dela para aqueles que virão. Dá sem medida e te darão sem medida. Ama até que te tornes o ser amado, mais ainda converte-te no mesmíssimo Amor .

E não te deixes confundir por uns poucos homicidas e suicidas, o bem é maioria, porém, não se nota porque é silencioso, uma bomba faz mais barulho que uma caricia, porém, para cada bomba que destrói há milhões de carícias que alimentam a vida. O bem alimenta-se de si mesmo, o mal destrói-se a si mesmo. Se o mal soubesse que é um bom negócio ser bom, seria bom nem que seja por negócios.

Não estás deprimido, estás distraído. Se escutar ao outro, o que leva dentro, saberia tudo, em tudo encontraria algo para ti, então elevaria-se constantemente, e já não haveria confusões se não matizes, e nesta serenidade não querias nada, então encontraria tudo, e estando no presente diria e farias o que há de dizer e fazer em cada momento, natural e graciosamente, sem esforço o que faria com que tua relação com os outros fosse plena e o crescer no amor seria mais criativo sem limites e condições.

A ignorância nos faz sentir presos e mortais, é dizer que nos fechamos e limitamos sozinhos o medo nos distrai do amor, que é sábio e valente porque sabe que não há nem medidas nem fim, olhe para dentro e desaparecerão as nuvens da periferia, fique quieto e em silêncio para ouvir a sua sabedoria interior.

A que tem séculos, não anos como seu corpo e por isso está além de suas medidas caprichosas, dos preconceitos que causam medo, filho de sua ignorância.

Não estás deprimido, estás distraído das maravilhas que acontecem ao seu redor. Desde o nascimento a colheitas, desde revoluções a concertos, desde campeonatos de futebol até viagens interplanetárias, não está deprimido por algo que passou, senão distraído de tudo, que é agora mesmo.

Eu estou aqui para lembrá-lo que todos nós fazemos parte da maior empresa, a humanidade, que constrói, cura, semeia, lava, canta e dança.

Deus espera que o homem volte a ser criança, para o acolher em seu seio…

Não estás deprimido, estás distraído…

Facundo Cabral

Tradução de Camila Mortari Remonatto.

* O texto original está disponível em:

http://www.facundocabral.info/literatura-texto.php?Id=87

69 – Praça da Luz

Assistam! – É tudo o que tenho a dizer:

“Venha cá, você vai foder comigo ou com a minha identidade?”

 

Sinopse: Prostitutas de idade avançada ganham a vida na Praça da Luz, em São Paulo. Relatos inusitados e surpreendentes de cinco mulheres que revelam em detalhes suas experiências em todos esses anos de profissão.

Gênero:  Documentrio
Diretor: Carolina Markowicz, Joana Galvão
Duração: 15 min    Ano: 2007
País: Brasil     Local de Produção: SP
Cor: Colorido

O destino bate à sua porta

O destino bate à sua porta

(Dirigido por Bob Rafelson, 1981)

Sinopse: Nos anos 30, em um posto de gasolina e restaurante à beira da estrada, Nick Papadakis (John Colicos), um grego que é o dono do estabelecimento, emprega Frank Chambers (Jack Nicholson), um andarilho. Em pouco tempo Cora Papadakis (Jessica Lange), a mulher dele, está tendo um obsessivo e apaixonado caso com Frank. Logo o casal de amantes conclui que a única forma de ficarem juntos e ter todo o dinheiro que ambos almejam é assassinar Nick

 

Quando coloquei esse filme no DVD às 1:45h da madrugada, imaginei que não ficaria com a atenção presa até o final, mas pelo contrário: não consegui piscar os olhos.  Também, o que esperar de um filme que tem Jessica Lange, Anjelica Huston, Jack Nicholson e Christofer Lloyd no elenco? Eu estou abismada com tantas reviravoltas e o mais importante: o diretor conseguiu fazer tudo isso, sem perder o ritmo.

Lembro que na semana passada, comentava com a minha mãe que tive esse filme em VHS nas mãos há uns dez anos (presenteado por um amigo dela, que sabia que eu era fã incondicional da Anjelica Huston), mas não o assisti por falta de paciência. Ainda bem que não o fiz porque naquela época (eu estava com uns dez anos) e provavelmente não entenderia nada.

O título em inglês “The Postman always rings twice” se refere a um antigo ditado que diz que quando se abre a porta para a morte, ela volta a bater de novo. A primeira versão do filme foi realizada em 1946 por Tay Garnett, com Lana Turner e John Garfield no elenco. Estou muito curiosa para vê-la porque se for tão boa (ou melhor) que a versão de 81, sem duvidas, entrará para a minha lista de filmes preferidos.

Estava lendo “1001 filmes para ver antes de morrer”, organizado por Steven Jay Schneider e encontrei uma referência ao longa de 1946, onde eles dizem o seguinte: “Lana Turner jamais esteve tão atraente como no papel de Cora Smith, que se casa com um homem mais velho insosso (Cecil Kellaway) para escapar da pobreza, mas que, profundamente insatisfeita, sucumbe à sua atração por Frank Chambers (John Garfield), um jovem andarilho.

Como muitos filmes noir, o relacionamento do casal malfadado depende de um crime, o assassinato do marido de Cora (…). Os enquadramentos claustrofóbicos de Tay Garnett enfatizam o aprisionamento dos amantes mortais e a mise-en-scene melancólica e proibitiva do filme é o cenário perfeito para a trama sinistra. Com seu figurino branco e glamourizada pela iluminação, Turner se torna o centro visual da história, baseada no romance de James M. Cain publicado na década anterior. Cora não é uma femme fatale comum. Seus sentimentos por Frank são verdadeiros e não uma armação ardilosa.

Em princípio foi difícil imaginar Jack Nicholson como um galã sedutor, porque como disse em outro post a imagem dele me remete a um fanfarrão. Mas ele consegue: e o faz muito bem aliás. A questão é que fiquei me perguntando como eles fariam um casal como Nicholson e Lange dar certo. Mas em momento algum você deixa de acreditar que os dois se amam e lutam pra ficar juntos.

A grande sacada são os momentos surpresas em que você supõe um acontecimento e aí, “ou dá tudo errado, ou dá tudo certo”. (E olha, eu realmente me surpreendi em algumas cenas!) A primeira tentativa do assassinato, onde Cora pega um saco cheio de bolinhas de chumbo, bate na cabeça do marido e solta um grito, assustada e incrédula por realmente ter feito aquilo: É SENSACIONAL!

Há também um clima tenso e sensual tão forte que você se convence: Caramba, eles são uns canalhas, mas merecem ser felizes.  – Pra você ter uma idéia, fazem sexo logo depois de assassinarem o marido de Cora / Os dois transando e o corpo bem ali.

O filme é super válido e já ouvi comentários de que o segundo supera o primeiro. A questão do ritmo é fundamental, ou melhor: é o que provavelmente diferencia os dois, claro que também pelas técnicas e pela  época em que foram produzidos. O que posso falar do segundo é que ele sustenta perfeitamente esse clima de suspense (mesmo que não tenha  o charme de um filme noir).

Mulher e Política

Quando a professora passou um trabalho sobre a Lei de Cota para mulheres na política, fiquei pasma por desconhecer a existência de uma decisão jurídica dessas. Resolvi então fazer um pesquisa básica sobre o direito e o papel que as mulheres assumem na política (tá, meio superficial mas vá), e o resultado é o seguinte:

A Lei 9.100, aprovada pelo Congresso Nacional em 1995 estipulava que vinte por cento de vagas de cada partido ou coligação fossem reservadas para candidatas mulheres. Já em 1997, percebendo uma possível inconstitucionalidade ao fornecer um tratamento diferenciado para o sexo feminino, aprovou-se a Lei 9.504 onde cada partido deveria oferecer no mínimo trinta por cento e no máximo setenta por cento de vagas para a candidatura de cada sexo.

Em seu artigo: “A lei de cota e as mulheres na política em 2010”, José Eustáquio Diniz Alves realiza um questionamento relevante. Ele estabelece uma análise sobre o uso dos termos: preencher e reservar. Com o objetivo de trazer um aperfeiçoamento para a política de cotas, a deputada Vanessa Grazziotin mobilizou movimentos sociais e feministas para promover justamente essa alteração na lei: mudar o termo reservar para preencher.

“A alteração parece pequena, mas a mudança do verbo “reservar” para “preencher” significa uma mudança substancial na política de cotas, conforme havia sido proposto no projeto da deputada Vanessa Grazziotin. Com a nova redação, os partidos ficam obrigados – no ato de registro da lista de candidaturas no TSE – a apresentar no mínimo 30% de candidaturas de cada sexo.” (ALVES, p.2)

Dilma Rousseff

Esse é um exemplo claro e atual de que apesar do cargo de presidente da república ser ocupado por uma mulher, a participação feminina brasileira na política continua consideravelmente baixa. Conforme dados disponíveis no site brasil.gov, a pesquisa realizada pela União Interparlamentar (que avaliou 145 países) mostra que o Brasil ocupa o 110º lugar no ranking e está atrás de nações com Serra Leoa, Togo e Eslovênia.

A composição partidária brasileira é em sua maioridade constituída por homens. Fica muito claro que a herança de uma sociedade paternalista continua influenciando o espaço e as estruturas políticas. Sem dúvidas, essa dificuldade de acesso acaba por simbolizar uma barreira a mais para a mulher, tornando a candidatura ainda mais desgastante.

A luta feminista surge justamente para acentuar a necessidade de uma atenção para os debates que introduzem uma perspectiva de que as mulheres merecem autonomia e igualdade. Esses itens serão conquistados através de uma transformação estrutural na sociedade.  Transformação que envolve não apenas reservas partidárias, mas melhorias em condições de trabalho, de salário e uma nova construção de relações sociais (aqui chama-se atenção para a necessidade de erradicar a violência contra a mulher).

São diversas (e antigas) as lutas femininas para a conquista de um espaço na política. A busca pelo fim da discriminação e pelo fim da neutralização do Estado revela a importância dos movimentos libertários que perpassam por outros cenários como o familiar, que envolvem questões individuais: gestação, salário, direito pelo planejamento familiar, igualdade entre cônjuges, etc.

História: Lutas e Conquistas:

Dilma Rousseff foi a 11ª mulher a ocupar o cargo de presidente na America Latina, outros oito países latino-americanos tiveram mulheres presidentes: Bolívia, Haiti, Nicarágua, Equador, Guiana, Panamá, Chile e Costa Rica. A primeira delas foi a argentina Maria Estela Martínez Perón, mais conhecida como Isabelita Perón. Sua eleição, no entanto estava vinculada ao marido: Juan Domingo. Ela era vice e quando ele faleceu, ocupou o seu lugar.

Eva Peron

Mas essas conquistas não se restringem a America Latina. Um exemplo atual de luta e vitória é o da liberiana Ellen Johnson Sirleaf, de 72 anos. Ela foi a primeira mulher a ser eleita a presidente na África e ganhou em 2011 o Prêmio Nobel da Paz. Desde a sua posse em 2006, começou um trabalho em conjunto com instituições financeiras para conseguir anular a dívida e reconstruir seu país.

A luta feminista tem um passado tão grande que suas heranças estão ligadas a Grécia:

“Historicamente, mesmo na Grécia, o berço da democracia, as mulheres não possuíam direito ao voto. No século XVIII, filósofos iluministas classificavam as mulheres como pessoas dotadas de uma razão inferior ou mesmo como irracionais. Nada deveria ameaçar os deveres considerados “naturais” das mulheres: cuidar do marido e dos filhos. Em 1793, Olympe de Gouges, a principal personagem feminina da Revolução Francesa, foi guilhotinada sob a acusação de ter desejado ser um homem de Estado e ter esquecido as virtudes próprias de seu sexo.” (VALVERDE, Daniela)

Os fatos narrados mostram que a realidade feminina política possui um passado e uma justificativa: a necessidade de ambivalência de tratamento.

História + Mulheres

A Luta por uma presença na política brasileira

Para ilustrar quão antiga é a busca feminina pelo direito de ter a presença na política, utiliza-se o caso da dentista Isabel de Mattos Dillon. Em 1880, ela procurou a Justiça para evocar a Lei Saraiva (que dava acesso a voto aos detentores de títulos científicos) para requerer alistamento eleitoral.  Diante dessa perspectiva, entende-se que a limitada participação feminina na política começou com os principais e mais básicos direitos sendo negados: o direito ao voto e a candidatura.

“Nos anos seguintes, surgiram várias iniciativas isoladas para permitir o voto feminino. Em 1894, Santos, no litoral paulista, promulga o direito das mulheres ao voto. A medida foi derrubada no ano seguinte. Em 1905, três mulheres conseguiram se alistar e votar em Minas Gerais. Em 1928, o Brasil elege sua primeira prefeita: Alzira Soriano de Souza, na cidade Lages, no Rio Grande do Norte. O voto feminino só se tornou um direito nacional em 1932”. (Fonte: brasil.gov)

Em 24 de fevereiro de 2012, comemorou-se os 80 anos do direito feminino ao voto. O Brasil foi um dos pioneiros – a Argentina e a França, por exemplo, só o fizeram na década de 1940 e Portugal e a Suíça apenas em 1970. Essa era uma das bandeiras defendidas pelas feministas do século XX, exaltadas ainda mais pela contextualização da época: fundação do partido comunista, Semana de Arte Moderna e Lutas de Operariado.

O Partido Republicano criado em 1850 foi uma das influências para a luta pelo acesso á política das mulheres brasileiras. Constituído por ativistas que buscavam o fim da escravidão, apoiou o favoreceu o sufrágio feminino através de Jeanette Rankin de Montana, a primeira mulher eleita ao Congresso em 1917. No Brasil, esta luta iniciou-se em 1910, quando a professora Deolina Dato fundou no Rio de Janeiro, o Partido Republicano Feminino.

Berta Lutz

Outro nome importante no cenário da luta feminina é Bertha Lutz que criou em 1922 a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino. A bióloga que recebeu influencia dos movimentos feministas europeus reafirmava a exigência pelo alistamento eleitoral. Suas lutas estavam adequadas ao chamado “feminismo comportado” – buscava introduzir a idéia de que o acesso feminino ao voto não iria trazer um conflito para os lares (ou uma diminuição das funções naturais da mulher: a de cuidar do lar)

Carlota de Queirós foi a primeira mulher eleita deputada federal em 1933 e disse a seguinte frase quando assumiu o cargo: “Cabe-me a honra, com a minha simples presença aqui, de deixar escrito um capítulo novo para a história do Brasil: o da colaboração feminina para a história do País” . Com o tempo percebe-se a luta feminina foi se modificando e se aprimorando. Deixou de ser uma busca pelo voto e passou a ser por uma participação efetiva da mulher na política.

 

REFERÊNCIAS

[ Acesso em: 08 de novembro de 2012, 18:12h]

[ Acesso em: 08 de novembro de 2012, 19:00h]

 

Geração Prozac

 

No Filmow, vários usuários classificaram Geração Prozac como uma versão mais leve de Garota Interrompida (filme de 1999, com Winona Ryder e Angelina Jolie ). Ao meu ver, os dois filmes se desencontram em muitas partes, principalmente porque possuem abordagens diferentes. Pra mim Geração Prozac está muito mais próximo de Réquiem por um Sonho (filme de 2000, com Ellen Burstyn) que também possui cortes secos e transições de lente subjetiva que levam o espectador a entrar no mundo do personagem.

Geração Prozac não aborda nenhum tema fora do comum. A trama envolve dramas muito próximos da realidade: Elizabeth (Lizzie, interpretada por Christina Ricci) é uma menina que vê os seus pais divorciarem muito cedo e cresce sob a proteção da mãe. Aos dezenove anos, ela consegue uma vaga no curso de Jornalismo na conceituada universidade de Harvard. Porém Lizzie acaba entrando em profunda depressão e se dedica a noites incansáveis de trabalho, sempre regadas de drogas e bebidas. Sua instabilidade emocional afasta seus entes mais queridos. Assim, ela decide procurar uma psiquiatra: Dra. Diana Sterling (Anne Heche), que lhe receita o antidepressivo Prozac

O filme me cativou na primeira cena, onde Lizzie sentada nua na cama, com feições e postura de desânimo explica um de seus dilemas:

 “Meus pais se divorciaram antes de eu fazer dois anos. E desde então, meu pai quase não participou da minha vida. E minha mãe participou demais. Ela queria corrigir todos os seus erros através de mm”.

A câmera gira entorno daquele corpo magro e quase desfalecido quando de repente, o pequeno momento de silêncio (onde Lizzie encara a câmera) é interrompido pela entrada da Senhora Wurtzel (mãe de Lizze, interpretada por Jéssica Lange).  Ela não consegue esconder o contentamento de ter uma filha bolsista em Harvard. Abre as cortinas, empacota as coisas, liga para a mãe avisando que aquele era o primeiro dia de faculdade da filha. Parecia que era ela que estava indo estudar: – educação e oportunidade: palavras que ela repete incansavelmente, reafirmando que seus desejos e perspectivas foram canalizados na filha.

Ainda que com certa frieza, Lizzie se levanta para arrumar suas coisas. No caminho para a faculdade, mãe e filha conversam sobre as perspectivas do curso de jornalismo e esse diálogo é essencial, é o recurso mais rico que o diretor utiliza para deixar claro o grau de complexidade daquela relação. Através das falas (linguagem emotiva) a mãe revela suas frustrações:

 

E pensar que na sua idade eu já era mãe e dona de casa. Eu ficava tão entediada que comprei um macaco, só para ter alguém com quem conversar. Mas aí você chegou.

Existe um momento no filme que me chamou atenção: Lizzie diz que a mãe vive tentando arrumar um namorado e sempre pergunta a filha se seus pretendes eram bons partidos. Ela conheceu de perto todos os namorados da mãe, menos o que ela mais queria: o pai. A primeira idéia que se tem é de que a mãe é uma solteirona enxuta e carente.

Na cena em que chegam na faculdade, um homem se aproxima e oferece ajuda. A mãe logo pergunta: “Você acha que ele seria um bom pai?” Logo ocorre uma pequena inversão, entende-se que mãe se culpa pela ausência da figura paterna na vida da filha e sua preocupação não é só encontrar um namorado e sim: a de encontrar um pai. Ela não é uma mãe tão má quanto em princío Lizzie nos leva a achar, se preocupa com a alimentação, higiene e educação da filha.

Quando se despedem, a Senhora Wurtzel sai chorando pelo corredor e Lizzie logo pensa: “sempre estivemos juntas, só nos duas: e minha mãe achou um jeito de se aproveitar disso.” Aquele era no imaginário de Lizzie um momento de ruptura (logo se percebe que  ela precisa da mãe muito mais do que imagina).

Na faculdade Lizzie pode ser o que não conseguiu na escola. Encontrou amigos, chamava atenção dos garotos, bebia, fumava, falava palavrões. Estava longe de casa e deixou seu desejo mais intimo aflorar: o desejo de não ser tratada como estranha (mesmo se sentindo assim). Lá ela conhece Ruby (interpretada por Michelle Williams), que se torna sua melhor amiga: “Se ela fosse homem, me casaria com ela”.  Freqüentam festas, falam sobre os mesmos filmes e músicas – a faculdade simboliza a libertação.

Um dia, passeando pela faculdade avista seu pai: era aquele, o homem que não via há cerca de quatro anos, ele estava justamente ali na sua frente, fotografando uma jovem que provavelmente possuía idade próxima a dela. “Como ele pôde nos trocar por isso?” Ela recorda de quando ainda era criança quando ele a fotografava: “Quando você vai voltar papai? Mamãe disse que se você quiser, ela quer também.” Com um enquadramento em seus olhos subtende-se que essa é uma lacuna que não foi preenchida. E assim ela mente pra si mesma: “Eu não o vejo há quatro anos, não preciso dele mais.”

Lizzie tem uma personalidade forte, mas totalmente susceptível. A sua iniciação no mundo das drogas e da bebida mostram a sua fragilidade. Na primeira vez que utiliza o ecstasy tem alucinações com Lou Reed. Imagina que ele canta pra ela. Seus olhos se enchem lágrimas. As drogas não são um caminho sem volta, mas sem dúvidas, é um caminho terrivelmente dolorido para os envolvidos e no caso representado no filme: ainda mais doloroso para a usuária.

Suas emoções são bem instáveis. Depois que ganha o prêmio de melhor aluna de jornalismo e recebe um convite de trabalho da Revista Rolling Stones, perde o rumo. Parece que tem medo de não conseguir produzir nada interessante então passa a viver disso: de escrever. Não come, não tom banho: só escreve. Gosto muito de quando ela fala: “Escrevo desde sempre, eu preciso”. Mas essa necessidade se torna tão grande, que começa a consumi-la. Ela é grossa com os amigos, não liga para a mãe.

Quando encontra-se em um cerco fechado, Lizzie é convencida a procurar a Dra. Diana Sterling. Ela se questiona inúmeras vezes se aqueles encontram realmente vão ajudá-la. Na primeira consulta, ela diz: “Eu sei que você vai dizer que tenho medo de rejeição por causa da minha relação com o meu pai. Só quero que você saiba que mesmo assim, continuo querendo me encontrar com ele”.

Há uma cena belíssima produzida por Erick Skjoldbaerg, onde ela está sentada, tentando escrever. Em um fade, aparece um disco do Lou Reed rodando e a sala onde ela se encontra, começa a rodar junto. Tomada por um desespero ela entende que teve um bloqueio: não consegue escrever. “Eu quero explicar como estou exausta. Até nos meus sonhos, eu acordo cansada.”

É ai que a Senhora Wurtzel entra novamente na história encenando uma dos diálogos do filme que mais mexeram comigo. Ela se desespera ao perceber que a filha voltou a ter depressão, começa a gritar e a chorar. Lizze recorda da infância e das discussões que a mãe tinha com o pai por telefone: Na cena, aparece a mãe gritando com o pai, enquanto ela rabiscava um desenho, fingindo não ouvir: “Eu a criei sozinha. O que você fez por ela? Eu a criei sem sua ajuda, dei alimentação, roupa, educação. Você nem veio visitá-la ou levá-la pra passear”A mãe quase quebra o telefone e de repente, solta um grito que parecia abafado há anos. Grito de cansaço, de tristeza.

Lizzie promete que vai passar o aniversário junto a mãe. Assim, a Senhora Wurtzel prepara todo um jantar e convida os pais. Mas Lizzie não parece tão animada. Antes mesmo dos seus avôs chegarem, ela bebe e rouba cigarros da mãe. Durante o jantar, a mãe tenta manter as aparências, mostrar para os pais que fez o ‘dever de casa todo e que criou uma boa filha, comenta dos prêmios que ela ganhou: faz uma propaganda da menina.

Mas Lizzie mal se senta a mesa e quando o faz, humilha a mãe. Diz que ela não chegou a ler nenhum de seus trabalhos e que por isso, não tem direito nenhum de falar sobre isso. Os avôs se assustam, perguntam se ela está se drogando. E ela diz: Sim! Eu uso drogas. Depois, adormece no sofá.

A mãe está acabada, ainda assim, cobre e faz um carinho na filha. Em Off, Lizzie diz algo emocionante: ‘Mãe, me desculpe. Me ajude. Eu sei que eu não tenho o direito de me comportar assim.  “Sonhei que tinha dito o contrário do que saiu da minha boca.” Quando se encontram pela manhã o embate acontece.

Lizzie diz que a mãe não paga as suas contas. Isso choca tanto a Senhora Wurtzel que ela pega todas as contas que paga para a consulta da filha e mostra os papéis acumulados. Com os olhos arregalados, revela que está exausta de tanto trabalho extra, só para manter o tratamento de Lizzie. A menina, depois que cai na real chora sem parar, sentindo-se naturalmente culpada.

A trama sofre algumas alterações. Lizzie começa um namoro e mostra ainda mais o seu descontrole emocional. Liga para o namorado sem parar, vai a seu encontro (mesmo quando ele pede um tempo). Ela fica devastada, aquele término de relação faz com que se sinta péssima – ela não sabe (ou simplesmente não consegue) controlar seu ciúme. É aí que a Dra Diana Sterling entra com o Prozac.

Quando a Senhora Wurtzel vai visitar a filha no hospital, acaba sendo assaltada. Leva socos e pontapés no rosto, tem o braço machucado e fica internada. A situação das duas  se inverte mais uma vez. “E assustador pensar que alguém precisa de mim”. Quem já esteve em uma situação como essa, com um pai ou uma mãe internado, deve entender que realmente é assustador. Falando agora por mim: parece que não vai se dar conta, que parte de você fica ali fingindo agüentar quando a outra, quer mergulhar a cabeça no travesseiro e chorar.

Lizzie não é uma má pessoa, apenas não aprendeu a controlar seus sentimentos (ou não consegue). Sua mãe, no final das contas é uma heroína: Está ali para segurar a filha a todo o momento, não se importando em como fazê-lo.

Acho que não preciso escrever mais nada (e acredite, eu ainda teria muito mais o que falar – às vezes eu não consigo deixar de ser prolixa). Na verdade, foquei na relação entre mãe e filha, na complexidade desse amor – foi onde o filme mais me tocou. Termino o Post então, com uma fala que a Senhora Wurtzel emite para a filha, quando as conversam na mesa da sala sobre o fim do namoro de Lizzie.

Quando seu pai me deixou

Você me trouxe de volta a vida.

Você precisava de mim

Você era tudo pra mim.

Confira o trailer:

– – –

– Oi, que bom que você atendeu… Estava tentando falar com você há dias . É que não tive coragem de assistir o filme que me emprestou. Não é nada contra romances, mas é que nenhum deles até hoje conseguiu atingir o meu imaginário sobre amor. Acho ótimo aqueles filmes de homens que dirigem carros em alta velocidade para salvar as mocinhas com um casamento brilhante no final, mas o amor não é só isso… não pode ser só isso. Sabe, não adianta dizer que vamos passar o resto da vida felizes juntos. E se um de nós cansar, desistir? O que nos resta senão o amor? A vontade de persistir e perceber que uma parte de mim está em você e vice versa. Me desculpe, estou sento taxativa demais não é? É que de repente me deu um medo. Medo de você achar que tudo seria rápido e perfeito, como este filme que você deixou na cabeceira da cama. Estou ligando pra isso, pra dizer que se você quiser tentar, eu só posso te garantir uma coisa: não será perfeito, mas será lindo.